terça-feira, 26 de outubro de 2010

12 pedaços de chocolate

  1. Sinto que comi o último pedaço de chocolate no universo.
  2. Quando ela me deu aquele último pedacinho.
  3. Devia ter percebido naquele dia mais que sempre, mas sabes, certas miúdas destroem a linearidade do meu continuum espaço-temporal, ela é um axioma deste facto.
  4. Ignorei, tentei agarrar uma última centelha de esperança dos seus cabelos, de que tudo seria diferente desta vez, nesta encarnação.
  5. E agora?
  6. Só vejo restos do meu mundo, não há vida, tudo é cenário barato de teatro experimental, pessoas são andróides pré-programados em rotinas algorítmicas básicas e previsíveis por matemáticos sádicos, predestinados a recriarem-se ad nauseum, sem independência interpessoal, como uma colmeia.
  7. E não há lugar para mim.
  8. Por uma falha de programação?
  9. Inadequação contextual dos meus propósitos?
  10. Desejos impróprios de um bom membro da sociedade?
  11. Mas eu só quero o meu chocolate!
  12. Uma nova porção não adulterada do mais puro chocolate.

sábado, 10 de abril de 2010

Velocidade de Escape

Eu é que digo isso, não me roubes a minha frase, eu é que fujo por falácias lógicas, por entre covardias linguísticas. Não esperas que eu acredite nisso, nas minhas próprias palavras mágicas de fuga. Não existe imparcialidade, o afastamento teria que ser sempre total, não seria ingénuo ao ponto de acreditar que podia tocar te sem te tocar, de alienar só uma parte de mim.
Tento ignorar fotos mentais, imagens, imagens e mais imagens, são tantas, que me levam a loucura, uma por uma, minuto por minuto, ainda não me distanciei delas, ainda não me removi do momento, ainda é uma visão em primeira pessoa, pornografia mental.
Linhas perdidas por existências insignificantes, forças de outros tempos marcados pela indiferença.
Neste meu ponto de conjectura, centro do universo, olho para lá dos tempos que passam. Aprecio a música como silêncio em movimento, dinâmico, nunca estático, nunca comum. Como uma parte intrínseca da minha existência, uma ponte para fora do centro do ruído humano, para subúrbios mais acolhedores. Não poderia continuar a viver se ela me deixasse.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Uma tempestade num copo de água

Uma tempestade num copo de água quimicamente instável.
Estou perdido na mitologia de mim mesmo, nem sei qual backstory é cânon, nem quem disparou primeiro.
Procuro entre as minhas ideias um sentido de wonderlust, mas estou demasiado perdido até pelos meus padrões, até pelo padrão do cosmos, demasiado longe de Altair, demasiado longe de Sirius, e já nem sei onde é Arcturus.
As direcções estão para lá de erradas, o mapa astral não é de confiança, mas o que eu esperava?
Que desta vez o mundo fosse simples e a transição indolor.
Uma explosão de pequenas coisas.
É assim na transição de dias, é assim sempre que penso nas minhas hipóteses.
É o pretensiosismo de dizer que não te quero.
É a interacção de regras e métodos para estar e sentir.
Não contemplo o presente, isso seria o previsível, não, sou proactivo em tempos passados, o futuro está longe de ser controlável.
Não pertence a ninguém, alguns diriam.
Pelo menos estou melhor, übermensch de trazer por casa. Está tudo melhor quem ontem, sempre melhor que há dias.
Mais estável, ma[i]s em clara decadência, seria de esperar, é sexta.
Coreógrafo retrospectivamente a nossa conversa, o meu modelo físico claramente tem falhas, algo não encaixa dentro da teoria disto, daquilo e de tudo o resto.
Quem é que raio pensa nisso?
E mais que um mero elemento desenquadrado, é parte do meu protocolo existencial, é a iluminação através de meditação extrema, maravilha de tempos passados, força que nunca esqueci.
Quem é que raio se apaixona numa sexta?
A tensão molecular tende a tornar-se sólida no meu estômago cada vez que penso em outras sextas assim.
Quem é que raio o concebe?
Há semanas que deviam ser apagadas do calendário.
Não esta.
“Não é ciência, é sentimento”
É fazer, não esperar
Tem que existir mais aí fora, não me posso reduzir a observação de mecanismos de construção de estórias, nem tentar tapar buracos no argumento
[Está frio lá fora, e pode chover através deles]

segunda-feira, 15 de março de 2010

Passatempos

“A penny for your thoughts”
Não me desiludas, não me iludas, dá-me com a realidade. Satisfaz a minha curiosidade, diz me o que querias dizer com aquilo. Não me deixes a pensar, desculpa a minha falta de honestidade passada. Em mim estas ideias movem-se com um passo digno de um glaciar na pré-revolução industrial. E sabes que noites perdidas não se recuperam, palavras muito menos. É uma espécie de
Jet Lag mental do qual sofro de forma incessante, fruto de demasiadas noite passadas com os olhos fixos em velas que se apagam demasiado erraticamente. Mas diz-me o que querias dizer com aquilo, elabora esse pensamento, constrói-me ideias, porque sabes que sou por demais fechado a conceitos estranhos, ouço e aprendo, por vezes depreendo, mas aqui estou a tocar uma sinfonia de ouvido.
Agora se eu tivesse de facto coragem de te dizer isto. De te explicar, de te brutalizar, de te dizer que não te compreendo, e que é isso.
Mas são mais palavras que ficam por dizer, não existe nada que me possa ajudar, de qualquer maneira já possuis todos os meus segredos, o que é um a mais ou a menos.
Mais uma para o papel, mais uma ideia abstracta, um sentimento prostituido para me manter a criar mais um dia.
Será que esperar é um bom passatempo?
Tirar um tempo da realidade, uma folga de tentar, um interlúdio sanitário do sentimento.
É melhor, não é?
Porra, não!
Não!
Não!
Não!
Dá-me fogo, chamas, dá-me o que puderes, aqui, agora.
Não seria altura de explorar a ficção em vez de morrer um pouco mais por dentro?
Continuo a espera e o chá já arrefeceu.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Foda-se o amor, vamos fazer uma dístopia!


Foda-se o amor, vamos fazer uma distopia!
É uma farra de destruição incontestada. Uma orgia de negação existencial,
Acendam os fogos, este mundo teve hipótese de provar o seu valor, agora não é mais do que desolação digna da MTV, apaguem as luzes, os neons, meu deus os neons, tanta cor não é digna de seres como nós, não somos dignos de tanta luz.
Em recorrência de dores repetitivas, eliminamos uma civilização, outra começa o ciclo outra vez.
Dharma é uma roda, hoje em chamas.
É o standard da destruição de alter-egos, disseminando o poder do falhanço objectivo, e pelo menos não esquecemos os nossos nomes, ainda que as nossas caras sejam imagem perdidas, esgares de prazer de tardes mortas, tardes de segredos sangrentos, encobertas pela desilusão e por promessas que nunca será verdadeiras.
Vamos empurrar os mecanismos, pô-los em movimento, preparar as mesas para os festins do fim, o relógio está a um minuto para a meia-noite.
Foda-se o amor, o apocalipse vinha a calhar.
Julieta jurava pelo deus da sua idolatria, eu juro pela morte deste mundo.
Isto é capaz de ficar intenso, interessante assim que a civilização começar a cair, isto é capaz de ficar interessante assim que tudo começar a arder.
Down with love em tons claramente militaristas, marchas dessensibilizadas, apocalípticas, rítmicas, austeras e dissolutas, e mil outros adjectivos insignificantes. Nunca interessou muito o que teria a dizer sobre o fim, interessa o que farei depois dele.
A transição não vai ser indolor, espero que não, o sangue vai correr, uma cor carmim infestando as ruas fumarentas desta cidade condenada, mas não te preocupes, há mais de onde esse veio.
Pára agora, esta pode ser a última paragem antes do fim. Espero que sim.
E chegamos onde estivemos sempre. O único sítio onde podemos ir.
Vamos construir a Igreja das Nossas Neuroses nos escombros deste mundo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Reflexos

Os reflexos nas paredes dizem tudo.
Não precisas de fugir, as dimensões químicas são dominantes, as verdades são momentâneas e este é o momento.
Tu sabe-lo, tu queres e amas a sua destruição, queres um pouco de drama para arejar uma vida confortável, não é?
Ou o conforto de estares só.
Ou a confiança que nunca serás mais que isto.
Ou mais uma fuga para os arquivos do choro.
Ou aquele sentimento que já esqueces nestas noite quentes em demasia.
Ou aquela noite que foi fria de mais.
Tu sabes que é Fevereiro, não existe voltar atrás, novo ciclo em vista, o tempo amainou de forma ecléctica em finais de dias demasiado tardios e noites que parecem nunca chegar, parece que vivo para elas e nisso concordo contigo.
É um ponto de partida, não é?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Fogo

Arde-lhe a alma, o inferno chegou mais cedo do que antecipava.
Apagando-se nas suas próprias cinzas. Consumido por si próprio, pelo calor no seu peito, pela força que o impele. Não sabendo sequer, sem conhecimento de outra forma de se consumir sem ser esta. Para quê saber?
Depois disto as cores parecem mais mortas, depois disto a cerveja não é tão absoluta, o gin tão destrutivo e o vinho tão doce. Vai precisar de novas palavras para definir extremos.
Segue em frente apenas, para nunca voltar aquele lugar, para nunca regressar. Ou será que sim?
O tempo é um rio ou um lago?
Uma recta ou um círculo, Oroboros, Eterno Retorno, ou apenas um beco sujo pelo vómito do tempo?
Questão que a ninguém interessa, não há tempo para a explorar. Apenas direcção sem sentido, um caminhar por caminhar, para gastar alguma dessa força, sem lugar onde parar, sem uma cara amiga por entre o pó da estrada, sem alguém que lhe diga aquela palavra que ele nunca ouviu. Talvez seja isso que ele procura, a palavra que ateie um contra-fogo na sua alma.
Prepara-se impaciente para o impacto.
Mas tudo é conjunturas quando visto de fora.
Tudo é hipóteses quando se vive em teorias.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Explorações

A exploração de obsessões é um bom entretenimento para o domingo à noite.
Dar um pouco de sabor à carcaça que tens alojada naquele canto da tua mente a que chamas passado. Jogar mais um jogo, matar mais tempo que te afasta dos momentos aceitáveis para tais actividades intelecto-onanistas. Sem fluidos, não há espaço para isso e os sistemas eléctricos são sensíveis, não tão estranhos e sensíveis como o resto dos teus pares.
Primeiro número raro, último número que lês por hoje. Pequenos quadradinhos de fuga, estorias a roçar os limites do verosímil dentro dos seus próprios omniversos, as regras são flexíveis, já chega não atravessares paredes na vida real.
Ou ler mentes, mas isso não é problema, não perdes muito.
Enfadas-te na 63º vez que revives esta fantasia, e procuras as tuas próprias fantasias.
O teu próprio salto quântico, um pulo ao teu passado.
Recomeçar algures onde poderias mudar, aproveitar novas conceptualizações que vieram demasiado tarde, algures em tempos mais esponjosos, onde aprenderias todos os movimentos que os teus velhos ossos já não imitam, onde poderias ensaiar num palco vazio tudo o que aprendeste.
Adestras na tua mente as possibilidades, regras e condições. Ler todos os livros que não tens tempo para ler agora, não poderias revelar ao mundo a tua origem e terias que esquecer todos os que amaste neste futuro prestes a ser rescrito, as saudades do futuro são sempre as piores e os paradoxos rasgam galáxias.
Contemplas o odioso paradoxo da predestinação, de como terias que conter as poucas memórias que restassem desse salto, de como certas coisas não podem ser evitadas.
No entanto…
Tudo seria diferente, dominarias, recuperarias tempos perdidos em introspecções destrutivas e destrutivas tentativas.
Um deus dourado.
Um demónio alado.
Potencialidades elevadas ao Sol da tua existência.
Fantasias, são resquícios do lodo primordial de uma vida de nunca estares onde queres, de nunca sentires o que deves sentir.
Retomo obsessões externas

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Integridade Estrutural

Nanossegundo após nanossegundo, elevados a potências incompreensíveis a nós pela sua imensidão, passados a perpetuar gestos claramente repetitivos com uma intensidade compulsiva.
Sabes que quando não durmo o tempo é especialmente relativo, contigo duplamente. Tempo estranho, fazes-me perder o comboio do meu pensamento. Espero pelo próximo enquanto suprimo demónios da libido.
Digladio-me com eles, bullet time, acrobacias mentais, espadas conectam-se em combate quando sinapses semi-adormecidas disparam cataratas de informação. Venço, mas fica sempre um deles. São piores que os gremlins, e nem os preciso de alimentar depois da meia-noite, qualquer momento é suficiente.
Mas por agora estão controlados, normalidade restabelecida na linha direcção lado nenhum.
Posso continuar, agora sem medo. Ainda que veja um deles num canto escuro da minha mente, a olhar me com seus olhos vermelhos.
Fica para outro dia.
Hoje tenho mais que fazer.
Hoje tenho que manter a minha integridade estrutural.

domingo, 26 de outubro de 2008

Diatribe alcoolizada

Esta é outra diatribe alcoolizada, de como teríamos sido espectaculares noutra incarnação.
"Tu estás apaixonado com a própria ideia de estar apaixonado" disse a minha mente desesperadamente tentando pôr estas palavras de sabedoria na boca da minha paixão, sabendo antecipadamente que ela não satisfaria a minha necessidade do melodramático.
Seria esse o meu consolo, de que somos ambos perfeitos, mas não nesta vida, não agora...
"O agora revela a tua esperança", a mente replica.
Replica? Como odeio essa palavra, palavra standard de escritores sem caché criativo, tenta, por favor, tenta com mais força!
"Bebe mais um copo, agora de companhia, não a censures por beber sozinha"
Nunca a censurei por beber sozinha! Nunca, onde iria buscar moral para fazer tais coisas?
"Não admites que tentaste nesse momento o clássico manobra de Cristo, de quereres carregar a cruz dela? Não me podes mentir!"
Não posso ter um final feliz, um em que em esteja em posse de Luke Skywalker no poster no Return of The Jedi, salvando o universo conhecido?
"Sejamos realísticos!"
Quem disse que temos que ser realísticos, porque é que não me posso agarrar as minhas ilusões?
E desde quando falas com tanto requinte, preferia um merdoso abrasileirado "cai na real", soas demasiado pedante!
"Pedante! Eu sou o tua mente, sou tu, como me podes acusar de ser pedante!
Tu, arrogância sem fundo, cachorro sem dono, puto mal amado. O pedantismo intelectual é a tua cama, minha puta racionalista!"
Racionalista, tiveste fora da cidade por quanto tempo? A minha vida é o improviso de altares á terra, e ela será para sempre o meu primeiro altar á terra, o primeiro verdadeiro altar carnal, sangrento, belo, sem amarras lógicas.
"Mentiras racionalizadas, eu estive sempre aqui, sempre que ela partia, sempre que pensavas que ela podia não voltar, sempre que pensavas que ela era um mito desse suposto sono desfasado, sempre que abrias aquela porta, sempre que sentias aquele aroma era como aquele soco merecido de '97. Racionalizaste o fim, um fim antecipado, por pouco que não o racionalizaste por completo. Dou-te esse osso, cachorro, não racionalizaste por completo, voltaste a ela com o rabo por entre as tuas pernitas, enlameado em desespero narcisista!"
Não voltei a ela, não voltei como um cão, não voltei simplesmente.
Apenas fiz o que tinha que fazer, nunca tive jeito para fugir aos meus impulsos, os meus ameaços criativos são carne para canhão dessa ideia.
No mínimo, voltei a mim.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Gnomos Malévolos

Sinto que quando nasci me roubaram a alma, que uma força invisível, inefável levou-me a alma na calada da noite, a retalhou num altar à terra, tronco de carvalho de outros tempos.
Talvez tenham sido os gnomos de jardim…
Só agora é que percebi, é esse o meu objectivo, construir esse quebra-cabeças que é esta ordem no caos de vida que levo, encontrando dia-a-dia mais uma peça perdida num sorriso, numa voz, num cheiro, num toque e em momentos.
É uma oportunidade, vejo-a bem de perseguir esse gnomo, encontrar partes perdidas da minha alma, é uma maneira de construir.
Mas espera…
Já possuo os contornos, tenho uma ideia da forma, pequenos indícios da direcção.
Sinto uma sensação de dejá vu nestas visões, isto é mais antigo do que penso, talvez a demanda tenho começado noutro momento, e que todas as minhas racionalizações sejam um produto de uma consciência a pouco tempo desperta?
É que, sabes, as minhas memórias de criança são demasiadamente semelhantes as minhas memórias de embriaguez, não sei por quê, tem a mesma distância mental.
É como ver um filme em VHS demasiado gasto, uma K7 demasiadas vezes alugadas, aquele filme que toda a gente quer ver, mas ninguém admite ter verdadeiramente gostado. Pergunto-me por vezes, vezes de mais, o porquê disto. Infância ou álcool, os dois prometem nos tempos felizes, todos se divertem na TV, seja álcool ou uma promoção ao último Action Man.
Tenho medo que sejam sonhos mal recordados, sério que tenho, há demasiadas memórias assim, que a vergonha me impede de confirmar com fontes fidedignas.
Memórias de desgosto, desilusão ou simples insatisfação em relação a promessas não cumpridas.
Ninguém me disse, me avisou que recordar a minha própria vida seria assim tão difícil.
Irrelevante, o que interessa é o processo.
Irrelevante, a minha alma ainda anda a monte.
É que o meu karma veio em negativo, só pode ser isso, a demanda é ainda enorme. A destruição é motivo de progressão emocional, nada zen nos seus momentos maiores.
E ainda a alma foge.
E peças ainda são poucas.

domingo, 12 de outubro de 2008

Caminhos já vistos

Penetro caminhos já vistos.
A minha fome por ti leva-me a cometer indiscrições monumentais, de proporções épicas, tudo para alimentar a fome de brutalidade, carnalidade e loucura.
Não posso, não devo, não me permito a arrastar-te comigo, mas não me importo de ser arrastado por ti, só por ti, só tens que ignorar toda a razão.
Que tal começarmos de novo?
Nomes novos para acções já nomeados de forma sôfrega?
Eufemismos relegados em prole de destemperos imediatos, tão doces na memória.
Um jogo em que ninguém saia ferido, de preferência, pelo menos desta vez, pelo menos neste momento, podemos ainda reescrever o nosso caminho nestas ruas desoladas.
Ainda vamos a tempo?
Ainda sabemos como isto começou, qual foi o momento decisivo que nos fez cair em graça?
Duvido, mas não se perde nada em tentar, em reinventar impulsos de formas mais belas, sem mentir, sem lhes dar nomes comuns.
Palavras ora ditas cedo ou tarde demais, dolorosas quando nunca são ditas.
Não as espero ouvir da tua boca, apenas que as penses, o teu corpo fala por ti.
É só isso que preciso.
Palavras conheço muitas, loucura só a minha.
É só isso que preciso.
Um pouco da tua loucura.
Ainda que…
Alertas-me para a tua estranheza contida, parece que me avisas de uma ponte caída ao fundo da estrada, uma vereda, um penhasco que eu deveria temer.
Será impressão minha ou mais uma expressão tua?
O que eu vejo é o meu medo ou é o teu, verdade que não sei.
Verdade que te quero, mas tenho medo de te afastar no processo.
Ou talvez já o tenha feito.
Vejo o meu desejo amordaçado por racionalismos odiosos mais uma vez, ainda.

domingo, 5 de outubro de 2008

Noite de Lua Cheia

Noite de lua cheia, nem uma nuvem à vista e um céu com toques de sonho narcótico devidamente moderado.
Um gato negro esvai-se nas sombras, pouca luz transporta com ele. Pouco mais acontece à vista, excepto morcegos em voos rasantes, aparentemente ignorando o seu estilo retro-gótico.
O gato atravessa-se de novo no meu caminho. Bela sensação, dejá vu, por um momento julgo possível que exista algo mais no universo. Tento me agarrar a essa ideia sem metafísicas lamechas e comuns, seria fácil de mais, tento o caminho mais difícil, inserir-me no plano cósmico.
Associar estrelas a ideias, forma experimentada de preservar ideias, associar constelações a locais, planetas a pessoas.
Os teus antepassados já o fizeram vezes sem conta, em língua diversas, nomes numerosos como as estrelas nomeadas.
Soa fácil, não soa?
Podia ser, mas não é boa ideia perturbar cães que arrastam as suas correntes.
Podia ser, mas não é boa ideia enquanto tu próprio arrastas corroídas correntes.
O gato aparece uma terceira vez, fico optimista, quase que já não sinto as correntes e este não é local para ser urbano-depressivo. É um local para deambular pelas orlas de bosques, gritando epítetos em línguas malditas, deliciosamente sozinho e alienígena a este local.
E o que poderia pedir mais?
É a escuridão onde me encontro.
O que poderia ver mais?
É um local para encontrar o nada esbatido no tudo.
O que poderia pedir mais sendo um pedinte de beleza?

domingo, 28 de setembro de 2008

Extinção Prematura


Por vezes alterco-me com questões importantes, questões nascidas da mente de um sofredor de insónias, são horas passadas em divisões disformes reflectindo acerca, por exemplo, da razão porque todos os animais com estilo estão extintos. É uma questão saudável de se considerar, soa a uma piada surrealista, porque é que toda a fauna exótica a sério bateu as botas. Será uma questão cultural, e por isso exótica, por estar extinta e assim fora do nosso alcance?
Não me parece!
Onde é que estão as galinhas gigantes?
E os lobos marsupiais?
E até os dodós são mais interessantes que um ganso aleatório.
Parece que estamos a viver num universo saído da mente de um Deus com inclinações de funcionário de repartição pública e um sentido de humor duvidoso.
“Galinhas! Que sejam pequenas, portáteis e gostem de milho! E boas no churrasco, já agora, para compensar os vírus que criei na terça-feira.”
Um pouco insosso, não acham?
Há quem sinta saudades de Salazar, eu sinto saudades do T-Rex.
Um certo fascínio pelo que se perdeu.
Pelo que nunca vou ver em primeira-mão, pelo que nunca vou poder apreciar nem sequer em segunda-mão.
E que se lixem os gansos.

domingo, 21 de setembro de 2008

Tudo o que me adormeça de ti


Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Queria aprender os teus ritmos, as tuas marés, os teus inventos, os teus padrões de pensamento e os teus processos de criativos.
Aprendi algo, aprendi que nunca estou verdadeiramente livre, que estou sempre pronto a ser aprisionado, magnetizado, enleado numa teia de novidades estonteantes, de pequenas ovelhas como nuvens e gnomos viajantes.
Quero estar narcotizado até voltares, carnalmente, em explosões cabaré-punk.
Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Mas tu não voltas, pois não?
Porque isto só foi um momento.
Porque isto foi uma tentação.
Porque isto não podia ser mais.
Porque isto não podia ser mais agora.
Porque.
Porquê?
Não guardo qualquer remorso, nenhuma dor maior, nenhum ódio vermelho.
Queria que me vendesses a tua alma, mas fui cego, esqueci-me que a amava livre, que era isso, a tua liberdade, o que me mantinha atento, pronto a ouvir, em transe nas tuas palavras.
Não quero a tua alma, pelo menos agora, apenas quero reflexos dela e um pouco do teu desassossego.
Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Mesmo que tenhas quebrado o meu Japa Mala, mesmo derrubando o meu arcano carvalho, mesmo interrompendo o meu mantra, mesmo assim não vejo em ti pecado.
Em fim, pensamentos, no meio disto só me arrependo de não te ter beijado uma última vez.
Minto.
Isso seria demasiado final.
E não consigo esquecer a tua pele.
E o sono não voltará.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Dualismos

Repara, a minha natureza é de uma dualidade peculiar, brutalidade e carinho desfasados por minutos simbólicos que nunca consegui bem compreender.
Uma besta criadora, um escritor, por vezes sem polegares oponíveis, rabiscando mundos de forma crua, observando calado, para sempre naquele banco de cimento sujo de outrora.
Preciso de musas, sem pudor digo que sim, sem vergonha digo que preciso de viver para escrever e tu és ainda uma página branca de mais, uma página que preciso de rabiscar e ler, pintalgar com crípticas ideias que nunca serão mais que ideias, que nunca serão mais porque todos temos que pagar uma portagens de sangue e suor neste mundo, burocracia emocional, medos de tempos passados como carimbos num passaporte.
Por vezes contemplo o suicídio social, para poder apagá-los, mudar de nome, de cidade, de vida, talvez algures para norte, para um sitio mais frio que este, longe de verões demasiado compridos. Nunca seria o suficiente.
Assim, ainda assim, abordo de forma pueril, inocente o mundo a minha volta, abordo-o com uma força, com um ímpeto, como se fosse um miúdo, como se tudo fosse novo.
A minha força de vontade roça a loucura por vezes, insensatez pura, impulsos mal comedidos, mas é assim que me sinto feliz, completo.
Não devia precisar de musas, consumem-me sempre, não devia porque as minhas musas são sempre decadentes, coisas do passado, de conjugação em pretérito (muito pouco) perfeito.
Gostava de pensar que és diferente, mas o universo dá-me sempre cartas do mesmo baralho, a exacta mesma mão de sempre.
E o meu mundo interior é sempre tão vasto, não devia por a minha alma nas mãos de outros seres humanos, tão integralmente, tão fatidicamente.
No entanto, preciso de te descobrir.
No entretanto, preciso de te sentir.
Preciso de saber o que és.
Por mais que possa doer.
Calma!
Digere.
Racionaliza.
Por força da lógica distorce verdades perdidas entre frases sem sentido, comete erros, mas comete algo, comete-te a algo.
Ordo ad Chao
Ordo ab Chao

domingo, 7 de setembro de 2008

LIberdade

Para ti, liberdade
Amo-te nos teus momentos plácidos, no cheiro de papel velho, no embate mental, na clareza da lógica e nas perdas de sanidade temporárias, intensas e sonoras.
Ouço os teus suspiros, ideias e gritos, sabem-me ao mesmo, no prazer e na dor, marcados e dissonantes, sabem-me a vida, a violência.
Sem ânsias, contemplando furacões, livres de preconceitos destroem carvalhos centenários como quem esmigalha egos de colegiais novas de mais para perceber verdades experimentadas, destruindo casas, buracos desses artísticos macacos como se fossem pequenos lápis, roídos e enfraquecidos por horas de escrita sem sentido.
Amo-te liberdade, todas as tuas faces, representações, pictogramas desgastados e limpas ilustrações estilizadas, para os meus olhos são o mesmo. Do meu ego quero que uses todo, não me leves nada, abusa de mim, estas dores não existem, estes turbilhões são para ser admirados, nunca me poderiam magoar, engrandecem-me, enlouquecem-me, fazem me esquecer de mim, vivo como poucas vezes.
Não te peço mais, só quero partilhar contigo o caos.
Liberdade e caos, amantes intangíveis, admiro-vos em todos este processo de decadência planeada.
Quero-te a ti, tudo o que o tempo permita, tudo o que o amontoado de células e conceitos a que chamo Eu o permita. Todo o que o tempo me permita dar, tudo o que o tempo não arrastar nas suas águas, tudo o que poder colocar em palavras e movimentos.
Posso cantar muito bem canções doutros dias negros, posso articular palavras usadas em momentos pedantes. Posso criar, mas não me posso deixar aprisionar. Não me posso deixar ficar por esses corredores de palavras que inspiram nas massas segurança, sabes que todas não valem o oxigénio gasto para as expirar, por mais bela que seja a boca que as possa proferir.
Tenho que escolher-me a mim, a minha verdade, as minhas paixões internas, sabes que essas nunca me abandonaram, essas nunca me deixarão enquanto as sinapses do meu cérebro ainda dispararem.
E lembra-te, nunca serei totalmente teu.
Nunca serei mais do que eu.

domingo, 20 de julho de 2008

Insólitas Colisões Nucleares

Este espaço é confinante e quase que sinto o tempo a solidificar a minha volta, como lodo, como tundra. Sinto-me redundante nesta sala, claustrofobia desmesurada em tempo e espaço. Não me sinto a mover, a ter direcção em pensamentos ou em movimentos.
Estagno se não sentir os cães no meu encalço, desafiam-me…
Não, espera, desafio-me, tenho que puxar os meus próprios cordões.
Tudo tem que ser feito de dentro para fora, pouco há do que depender lá fora.
O exterior nunca será mais real do que a publicidade que vês na TV, opiniões facciosas disfarçadas de factos por comentadores com agendas gordas e bagagens demasiado cheias.
Nada acontece que me demova desta linha de pensamento, os passos do tempo são demasiadamente lentos. As cordas da existência estão demasiadamente soltas e a sua vibração quase que não produz som no vácuo de interesse que é este momento.
Não vejo realidades que se consigam cruzar com a minha, não vejo os pontos de contacto, paralelismos que valha a pena explorar e porventura uma tempestade de partículas na qual entrar.
Horas de desespero substituídas por horas de indulgência meditativa, contemplativa, aborrecimento sem fim, todos os corpos que me rodeiam não são suficientemente gravíticos para me atrair, para trair a minha calma.
Gritos amotinam o momento, isto é novo, parece-me um bom momento para observar.
Sentada pouco segura, botas de outras modas, cara balançante entre a seriedade e algo que precisaria de uma vida para perceber.
Palavras baixam, atingem a barreira do som e desaparecem.
A minha mente pôs-se em fuga perante as possibilidades desta visão, é uma espécie de alimento, interlúdio do que seriam horas deixadas vagas por ideias concluídas e emancipadas.
Que foi isto?
É a pitoresca causalidade da passagem do tempo em insólitas colisões nucleares.
São preparações fundamentais em concílios de anciões sábios. A exploração da sua alma apresenta perguntas pertinentes a um observador leigo, um conhecedor acautelado dispensa pensamentos excedentes, remanescentes, que atrasam eventuais descobertas.
Um conhecedor acautelado apenas observa.
Um observador acautelado não se deixa confundir por visões dualísticas.
Eu, blasfémia cientifica!
Eu não tinha os conhecimentos para controlar tal força, tal força da natureza, tal instinto em mim, animal. Dinamismo explosivo, supernova de tonalidades avermelhadas, obscuras em velhos céus majestosos, novas impressões forjadas perante caminhos abruptos no seu aparecimento.
Puxamos-nos um ao outro por essas ruas tão velhas, sobre os nossos pés decisões anteriores, paixões novas, tentações não ignoradas e sôfregas vindas a superfície em busca de oxigénio alienado do mundo, colidindo com incautas paredes em momentos de surpresa em estado bruto. Suspiro um pequeno eureka, uma subtil descoberta, uma pequena surpresa nas minhas mãos, não te moves segundo as leis da física newtoniana, és algo fora desse enquadramento corpóreo.
E aqui nascem novas ideias, continuadas depois deste breve intervalo para publicidade em sonhos de um sono desfasado.

sábado, 21 de junho de 2008

Decadência

Só vejo decadência, ando pela rua, frontes deslapidadas, canos rotos, lojas que já não actualizam os stock desde 84. Velharias, pessoas cansadas, sei lá.
Será reflexo de mim, caminhei vezes de mais estas ruas para nunca ter reparado em tanta morte a rodear a minha pessoa.
É reflexo, é, sem dúvida a minha própria mente não o consegue esconder de mim. Sinto-me a decair, a graciosamente me desfazer em pó nestas ruas e não há fé que me salve. Nojo a estes pensamentos, isto é só passageiro, mas sabe a eterno, sabe a montanhas, sabe aos Urais, imóveis, longínquos como uma memória que eu nunca tive. Não sei o que me fez pensar nisto, eu sei que isto é perene, vejo o dia no calendário em que vai tudo acabar, mas não acredito em tal mini Apocalipse, tanto fogo que limpará a minha existência deste mapa em que nunca quis estar cartografado. Não queria mesmo, não devia estar nessa lista, numerado, fogo, não devia, a minha alma não o queria, proibiu me de o fazer, ameaçou deixar me. Desculpas rascas, decadentes com um prostituta num canto escuro, para esta escolha, em nome da segurança dizia eu.
Porra, deixa-te de dúvidas existencialistas, tens trabalho a fazer. Deixa-te de ter ideias, adquire o método, um método que seja, algo, organiza-te, cataloga as ideias num armário escondido numa cave obscura por agora.
Por favor, por agora não penses, por favor, por agora não penses nela, por favor, concentra-te, por favor, por agora, esquece-te de ti próprio, por agora, não sejas acção nem reflexão, sê execução. Sê vazio de desejo, coma emocional induzida por objectivos, vê se percebes, agora não é o momento para isto, tens a tua vida em cima de ti, pungente, não tentes fugir, vai doer mais se o fizeres, Atlas não pode fugir.
Mais um par de dias e podes matar a mansa besta de carga.
Mais um par de dias e podes ser o lobo.