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sábado, 10 de abril de 2010

Velocidade de Escape

Eu é que digo isso, não me roubes a minha frase, eu é que fujo por falácias lógicas, por entre covardias linguísticas. Não esperas que eu acredite nisso, nas minhas próprias palavras mágicas de fuga. Não existe imparcialidade, o afastamento teria que ser sempre total, não seria ingénuo ao ponto de acreditar que podia tocar te sem te tocar, de alienar só uma parte de mim.
Tento ignorar fotos mentais, imagens, imagens e mais imagens, são tantas, que me levam a loucura, uma por uma, minuto por minuto, ainda não me distanciei delas, ainda não me removi do momento, ainda é uma visão em primeira pessoa, pornografia mental.
Linhas perdidas por existências insignificantes, forças de outros tempos marcados pela indiferença.
Neste meu ponto de conjectura, centro do universo, olho para lá dos tempos que passam. Aprecio a música como silêncio em movimento, dinâmico, nunca estático, nunca comum. Como uma parte intrínseca da minha existência, uma ponte para fora do centro do ruído humano, para subúrbios mais acolhedores. Não poderia continuar a viver se ela me deixasse.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Uma tempestade num copo de água

Uma tempestade num copo de água quimicamente instável.
Estou perdido na mitologia de mim mesmo, nem sei qual backstory é cânon, nem quem disparou primeiro.
Procuro entre as minhas ideias um sentido de wonderlust, mas estou demasiado perdido até pelos meus padrões, até pelo padrão do cosmos, demasiado longe de Altair, demasiado longe de Sirius, e já nem sei onde é Arcturus.
As direcções estão para lá de erradas, o mapa astral não é de confiança, mas o que eu esperava?
Que desta vez o mundo fosse simples e a transição indolor.
Uma explosão de pequenas coisas.
É assim na transição de dias, é assim sempre que penso nas minhas hipóteses.
É o pretensiosismo de dizer que não te quero.
É a interacção de regras e métodos para estar e sentir.
Não contemplo o presente, isso seria o previsível, não, sou proactivo em tempos passados, o futuro está longe de ser controlável.
Não pertence a ninguém, alguns diriam.
Pelo menos estou melhor, übermensch de trazer por casa. Está tudo melhor quem ontem, sempre melhor que há dias.
Mais estável, ma[i]s em clara decadência, seria de esperar, é sexta.
Coreógrafo retrospectivamente a nossa conversa, o meu modelo físico claramente tem falhas, algo não encaixa dentro da teoria disto, daquilo e de tudo o resto.
Quem é que raio pensa nisso?
E mais que um mero elemento desenquadrado, é parte do meu protocolo existencial, é a iluminação através de meditação extrema, maravilha de tempos passados, força que nunca esqueci.
Quem é que raio se apaixona numa sexta?
A tensão molecular tende a tornar-se sólida no meu estômago cada vez que penso em outras sextas assim.
Quem é que raio o concebe?
Há semanas que deviam ser apagadas do calendário.
Não esta.
“Não é ciência, é sentimento”
É fazer, não esperar
Tem que existir mais aí fora, não me posso reduzir a observação de mecanismos de construção de estórias, nem tentar tapar buracos no argumento
[Está frio lá fora, e pode chover através deles]

domingo, 21 de setembro de 2008

Tudo o que me adormeça de ti


Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Queria aprender os teus ritmos, as tuas marés, os teus inventos, os teus padrões de pensamento e os teus processos de criativos.
Aprendi algo, aprendi que nunca estou verdadeiramente livre, que estou sempre pronto a ser aprisionado, magnetizado, enleado numa teia de novidades estonteantes, de pequenas ovelhas como nuvens e gnomos viajantes.
Quero estar narcotizado até voltares, carnalmente, em explosões cabaré-punk.
Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Mas tu não voltas, pois não?
Porque isto só foi um momento.
Porque isto foi uma tentação.
Porque isto não podia ser mais.
Porque isto não podia ser mais agora.
Porque.
Porquê?
Não guardo qualquer remorso, nenhuma dor maior, nenhum ódio vermelho.
Queria que me vendesses a tua alma, mas fui cego, esqueci-me que a amava livre, que era isso, a tua liberdade, o que me mantinha atento, pronto a ouvir, em transe nas tuas palavras.
Não quero a tua alma, pelo menos agora, apenas quero reflexos dela e um pouco do teu desassossego.
Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Mesmo que tenhas quebrado o meu Japa Mala, mesmo derrubando o meu arcano carvalho, mesmo interrompendo o meu mantra, mesmo assim não vejo em ti pecado.
Em fim, pensamentos, no meio disto só me arrependo de não te ter beijado uma última vez.
Minto.
Isso seria demasiado final.
E não consigo esquecer a tua pele.
E o sono não voltará.

domingo, 18 de maio de 2008

Descida

Aveiro, temos um problema.

Estou num padrão de reentrada difícil.

Não estou em controlo dos thrusters frontais, estou a cair sem nenhum domínio em relação a velocidade de descida, o ângulo está completamente errado.

Aveiro!

Respondam!

Aveiro, estou sozinho, preciso de direcções, estou sem controlo.

As minhas leituras são erróneas, não consigo ver o sol, a minha bússola não pára e não consigo ter referências visuais!

Aveiro, respondam!

Aveiro!

(Sim, é pequeno, final de semestre é assim...)

domingo, 11 de maio de 2008

Um gato observa atentamente uma vela

Um gato observa atentamente uma vela, destilando nos seus olhos todas as possíveis cores que o olho do gato pode refractar. Mais que isto são só sombras geradas pelo movimento impaciente de uma chama que aparenta querer fugir para paragens mais quentes, talvez a sul de Punta-Caña. O gato olha, pensando em algo, não consigo destrinçar nada nos seus olhos, além dos óbvios reflexos da escuridão.
Olho para o tecto, perco-me em alguns pensamentos que mereciam, só por si, uma mini-inquisição de sábado à tarde. Com uma pequena fogueira a acompanhar. Neurónios debandam de tais pensamentos, anseiam por umas férias volumosas algures a norte do nada, em que um pouco de patavina ladeia com classe uma zona de absolutamente coisa nenhuma.
O chocalhar da chama criou uma imagem que pica a minha memória, uma ideia, não lhe consigo chegar com os dedos da minha mente, coçá-la, claramente está nas costas da minha psique. Fecho os olhos, agora a sério, volto daqui a 8 horas, fechado para liquidação de ideias.
Tenho que fazer, não quero ser um extra num filme do Romero.
Tenho que fechar os olhos.
Fecho os olhos, agora é definitivo.
Uma última interjeição, já sei o que marinava na mente do gato.
Uma forma discreta de sentar na minha cara.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Antiguidades


Amor?
Um homem gasto, alimentado pela memória do beijo que ela, jovem exuberante, lhe partilhara.
Razão:
Mais vale a pena experimentar, se não nunca saberei o sabor…
É esse o fim desta estória, o princípio de outra, o meio é a força quinética louca de um beijo criando um novo rumo para um vida em constante estagnação.
O principio? Ah, sim o principio!
Algures por entre o frio de Janeiro e o acalentar de Março, sozinho mas de companhia, estava consigo mesmo, com a cerveja num dos bares do costume por entre amigos dispensáveis como chocolate quente numa noite de Inverno, percebes?
Discutia-se um pouco de tudo, quiche, aitolahas, música celeste e energia geotérmica em São Félix da Marinha.
E então entrou ela, entrou naquela sala, aquela sala outrora mais fumarenta, maravilhas do mundo moderno, e irremediavelmente na vida dele, um lapso ocasional do destino, roda ruída na engrenagem da maquinaria cósmica.
Por falar nisso, alguém tem um cigarro que eu possa cravar?
Hummm…
Continuando, ele sentiu essa perturbação no ambiente, virou-se instintivamente, no ar “The Birth of Cool” do mestre Miles, ela pálida, ruiva, enevoada, pernas de Moulain Rouge numas calças causais. Virava cabeças observadoras, percebem?
Do género que falhas um gole do teu whiskey-cola, se é que percebes a minha onda...
Ela acende um charuto, Havanero, se não me falha o senso do olfacto.
Mentes tombam na sua presença, mas não a mente dele, sobrancelha erguida, sobrolho em posição extrema e quiçá uma ligeira atracção, talvez maior se não fosse agora o fumo que a envolvia. Um olhar cruzado pelo acaso de uma mão erguida na busca da satisfação. Silêncio mental, ambos, uma cadeira livre, uma oportunidade que ela não despreza, será que está perdida?
É uma surpresa para ele, não pelo acto mas por ela, ela, ela é algo mais…
“Sabias que existem casos de tubarões fêmeas que deram à luz sem interacção sexual?”
Que porra de pergunta era aquela?
Uma linha de engate?
Piada onanista?
É por ele estar sozinho?
“Sabia, sabia, disse-me o Sir Richard Atenborough”
Sarcástico no tom, no entanto mostrando algumas abertas.
Conversa evolui, mentes ligadas na iluminação e disparate, emoção e lógica enquanto o tempo passa sem atenção as chamadas de cortina dos empregados, luzes fortes, mesas arrumadas e esfregão no chão.
“É a minha última noite aqui”
Final fatídico, um pouco dele morreu nesse momento, depois de tanto tempo, depois de tanta solidão, alguém com quem cruzar espadas mentais, ela de lábios brilhantes
E ela beijou-o
A sério, beijou-o ali como se fosse o Ragnarok e ele fosse a ultima fogueira. Chocado e impressionado, retribuindo a intensidade, uma explosão tão não característica dele, deixado então com um adeus até sempre ou até um dia, o que vier primeiro…
Razão:
Mais vale a pena experimentar, se não nunca saberei o sabor…
Uma razão louvável, noutras circunstâncias, mas a falta de constância perturba-o, ele é um homem de hábitos, impulsão ao mínimo, lógica em overdrive, overkill de lógica. No entanto, não foi só ela que retirou um sabor daquele beijo, ele sentiu por um momento o sabor da loucura, do improviso, o bebop emocional que a vida pode guardar.
E ele ainda caminha por estes corredores, por ventura mais feliz agora, essa noite foi importante, abriu portas, mas essa é outra estória…

segunda-feira, 31 de março de 2008

Luz


7 anos depois, tudo continua na mesma…
“Luz, muita luz, escondida por trás desse manto negro”
Palavras marteladas amargas, elogio fingido, doce que ficou à chuva tempo de mais num mundo que não perdoa indecisão.
Julgava-te morta, pensava em ti como uma personagem de uma estória demasiado floreada, demasiado melodramática, era mais fácil ficcionar o passado.
7 dias, 7 meses e 7 anos depois da queda…
Depois que partimos, sem destino, para não voltar, para ir para algures repleto de luz ou, quiçá, apenas de caras novas.
Como te amei nessa tarde, uma última vez que nunca me denunciou o fim, fogo demais para uma tarde de terça, parecia um quinta a noite, parecia outro tempo, exemplo de relatividade temporal.
Como te odiei nessa noite!
“Parto para Norte, não me sigas, não o podes fazer, vai para sul, não te preocupes, eu safo-me!”
Por quanto tempo?
Vejo agora que voltaste, a minha pergunta tem resposta, não mudaste um milímetro desde da última vez que enfrentaste o vento, imponente montanha de belas mentiras, fonte inconstante de amor, não, paixão, patética imitação do infinito, desvio temporário de planos inscritos a muito em pedras vulcânicas, antigas, longínquas.
Voltaste para ver o que criaste
“Sim”
Mas…?
“Alegra-te a verdade?”

domingo, 9 de março de 2008

Sonho...

Ontem sonhei que tocava guitarra, sonhei que tocava o riff perfeito, ou quase, faltava qualquer coisa…
Uma voz recitava notas e tempos, entoações e intensidades.
Vi o som moldar o mundo, destruir as decadentes cidades dos homens com fogo e gelo, uma nota por cada pilar que implode, cataclismo em crescendo de paixão até que o mundo pare de girar. Entropia levada a extremos apocalípticos, coalescência do som, uma parede melódica impenetrável!
E depois o silêncio, nada, tudo é extinto e tudo é estático, ruído branco, tudo menos o meu coração, caixa de ritmos do Apocalipse.
Acordo.