terça-feira, 26 de outubro de 2010

12 pedaços de chocolate

  1. Sinto que comi o último pedaço de chocolate no universo.
  2. Quando ela me deu aquele último pedacinho.
  3. Devia ter percebido naquele dia mais que sempre, mas sabes, certas miúdas destroem a linearidade do meu continuum espaço-temporal, ela é um axioma deste facto.
  4. Ignorei, tentei agarrar uma última centelha de esperança dos seus cabelos, de que tudo seria diferente desta vez, nesta encarnação.
  5. E agora?
  6. Só vejo restos do meu mundo, não há vida, tudo é cenário barato de teatro experimental, pessoas são andróides pré-programados em rotinas algorítmicas básicas e previsíveis por matemáticos sádicos, predestinados a recriarem-se ad nauseum, sem independência interpessoal, como uma colmeia.
  7. E não há lugar para mim.
  8. Por uma falha de programação?
  9. Inadequação contextual dos meus propósitos?
  10. Desejos impróprios de um bom membro da sociedade?
  11. Mas eu só quero o meu chocolate!
  12. Uma nova porção não adulterada do mais puro chocolate.

sábado, 10 de abril de 2010

Velocidade de Escape

Eu é que digo isso, não me roubes a minha frase, eu é que fujo por falácias lógicas, por entre covardias linguísticas. Não esperas que eu acredite nisso, nas minhas próprias palavras mágicas de fuga. Não existe imparcialidade, o afastamento teria que ser sempre total, não seria ingénuo ao ponto de acreditar que podia tocar te sem te tocar, de alienar só uma parte de mim.
Tento ignorar fotos mentais, imagens, imagens e mais imagens, são tantas, que me levam a loucura, uma por uma, minuto por minuto, ainda não me distanciei delas, ainda não me removi do momento, ainda é uma visão em primeira pessoa, pornografia mental.
Linhas perdidas por existências insignificantes, forças de outros tempos marcados pela indiferença.
Neste meu ponto de conjectura, centro do universo, olho para lá dos tempos que passam. Aprecio a música como silêncio em movimento, dinâmico, nunca estático, nunca comum. Como uma parte intrínseca da minha existência, uma ponte para fora do centro do ruído humano, para subúrbios mais acolhedores. Não poderia continuar a viver se ela me deixasse.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Uma tempestade num copo de água

Uma tempestade num copo de água quimicamente instável.
Estou perdido na mitologia de mim mesmo, nem sei qual backstory é cânon, nem quem disparou primeiro.
Procuro entre as minhas ideias um sentido de wonderlust, mas estou demasiado perdido até pelos meus padrões, até pelo padrão do cosmos, demasiado longe de Altair, demasiado longe de Sirius, e já nem sei onde é Arcturus.
As direcções estão para lá de erradas, o mapa astral não é de confiança, mas o que eu esperava?
Que desta vez o mundo fosse simples e a transição indolor.
Uma explosão de pequenas coisas.
É assim na transição de dias, é assim sempre que penso nas minhas hipóteses.
É o pretensiosismo de dizer que não te quero.
É a interacção de regras e métodos para estar e sentir.
Não contemplo o presente, isso seria o previsível, não, sou proactivo em tempos passados, o futuro está longe de ser controlável.
Não pertence a ninguém, alguns diriam.
Pelo menos estou melhor, übermensch de trazer por casa. Está tudo melhor quem ontem, sempre melhor que há dias.
Mais estável, ma[i]s em clara decadência, seria de esperar, é sexta.
Coreógrafo retrospectivamente a nossa conversa, o meu modelo físico claramente tem falhas, algo não encaixa dentro da teoria disto, daquilo e de tudo o resto.
Quem é que raio pensa nisso?
E mais que um mero elemento desenquadrado, é parte do meu protocolo existencial, é a iluminação através de meditação extrema, maravilha de tempos passados, força que nunca esqueci.
Quem é que raio se apaixona numa sexta?
A tensão molecular tende a tornar-se sólida no meu estômago cada vez que penso em outras sextas assim.
Quem é que raio o concebe?
Há semanas que deviam ser apagadas do calendário.
Não esta.
“Não é ciência, é sentimento”
É fazer, não esperar
Tem que existir mais aí fora, não me posso reduzir a observação de mecanismos de construção de estórias, nem tentar tapar buracos no argumento
[Está frio lá fora, e pode chover através deles]

segunda-feira, 15 de março de 2010

Passatempos

“A penny for your thoughts”
Não me desiludas, não me iludas, dá-me com a realidade. Satisfaz a minha curiosidade, diz me o que querias dizer com aquilo. Não me deixes a pensar, desculpa a minha falta de honestidade passada. Em mim estas ideias movem-se com um passo digno de um glaciar na pré-revolução industrial. E sabes que noites perdidas não se recuperam, palavras muito menos. É uma espécie de
Jet Lag mental do qual sofro de forma incessante, fruto de demasiadas noite passadas com os olhos fixos em velas que se apagam demasiado erraticamente. Mas diz-me o que querias dizer com aquilo, elabora esse pensamento, constrói-me ideias, porque sabes que sou por demais fechado a conceitos estranhos, ouço e aprendo, por vezes depreendo, mas aqui estou a tocar uma sinfonia de ouvido.
Agora se eu tivesse de facto coragem de te dizer isto. De te explicar, de te brutalizar, de te dizer que não te compreendo, e que é isso.
Mas são mais palavras que ficam por dizer, não existe nada que me possa ajudar, de qualquer maneira já possuis todos os meus segredos, o que é um a mais ou a menos.
Mais uma para o papel, mais uma ideia abstracta, um sentimento prostituido para me manter a criar mais um dia.
Será que esperar é um bom passatempo?
Tirar um tempo da realidade, uma folga de tentar, um interlúdio sanitário do sentimento.
É melhor, não é?
Porra, não!
Não!
Não!
Não!
Dá-me fogo, chamas, dá-me o que puderes, aqui, agora.
Não seria altura de explorar a ficção em vez de morrer um pouco mais por dentro?
Continuo a espera e o chá já arrefeceu.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Foda-se o amor, vamos fazer uma dístopia!


Foda-se o amor, vamos fazer uma distopia!
É uma farra de destruição incontestada. Uma orgia de negação existencial,
Acendam os fogos, este mundo teve hipótese de provar o seu valor, agora não é mais do que desolação digna da MTV, apaguem as luzes, os neons, meu deus os neons, tanta cor não é digna de seres como nós, não somos dignos de tanta luz.
Em recorrência de dores repetitivas, eliminamos uma civilização, outra começa o ciclo outra vez.
Dharma é uma roda, hoje em chamas.
É o standard da destruição de alter-egos, disseminando o poder do falhanço objectivo, e pelo menos não esquecemos os nossos nomes, ainda que as nossas caras sejam imagem perdidas, esgares de prazer de tardes mortas, tardes de segredos sangrentos, encobertas pela desilusão e por promessas que nunca será verdadeiras.
Vamos empurrar os mecanismos, pô-los em movimento, preparar as mesas para os festins do fim, o relógio está a um minuto para a meia-noite.
Foda-se o amor, o apocalipse vinha a calhar.
Julieta jurava pelo deus da sua idolatria, eu juro pela morte deste mundo.
Isto é capaz de ficar intenso, interessante assim que a civilização começar a cair, isto é capaz de ficar interessante assim que tudo começar a arder.
Down with love em tons claramente militaristas, marchas dessensibilizadas, apocalípticas, rítmicas, austeras e dissolutas, e mil outros adjectivos insignificantes. Nunca interessou muito o que teria a dizer sobre o fim, interessa o que farei depois dele.
A transição não vai ser indolor, espero que não, o sangue vai correr, uma cor carmim infestando as ruas fumarentas desta cidade condenada, mas não te preocupes, há mais de onde esse veio.
Pára agora, esta pode ser a última paragem antes do fim. Espero que sim.
E chegamos onde estivemos sempre. O único sítio onde podemos ir.
Vamos construir a Igreja das Nossas Neuroses nos escombros deste mundo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Reflexos

Os reflexos nas paredes dizem tudo.
Não precisas de fugir, as dimensões químicas são dominantes, as verdades são momentâneas e este é o momento.
Tu sabe-lo, tu queres e amas a sua destruição, queres um pouco de drama para arejar uma vida confortável, não é?
Ou o conforto de estares só.
Ou a confiança que nunca serás mais que isto.
Ou mais uma fuga para os arquivos do choro.
Ou aquele sentimento que já esqueces nestas noite quentes em demasia.
Ou aquela noite que foi fria de mais.
Tu sabes que é Fevereiro, não existe voltar atrás, novo ciclo em vista, o tempo amainou de forma ecléctica em finais de dias demasiado tardios e noites que parecem nunca chegar, parece que vivo para elas e nisso concordo contigo.
É um ponto de partida, não é?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Fogo

Arde-lhe a alma, o inferno chegou mais cedo do que antecipava.
Apagando-se nas suas próprias cinzas. Consumido por si próprio, pelo calor no seu peito, pela força que o impele. Não sabendo sequer, sem conhecimento de outra forma de se consumir sem ser esta. Para quê saber?
Depois disto as cores parecem mais mortas, depois disto a cerveja não é tão absoluta, o gin tão destrutivo e o vinho tão doce. Vai precisar de novas palavras para definir extremos.
Segue em frente apenas, para nunca voltar aquele lugar, para nunca regressar. Ou será que sim?
O tempo é um rio ou um lago?
Uma recta ou um círculo, Oroboros, Eterno Retorno, ou apenas um beco sujo pelo vómito do tempo?
Questão que a ninguém interessa, não há tempo para a explorar. Apenas direcção sem sentido, um caminhar por caminhar, para gastar alguma dessa força, sem lugar onde parar, sem uma cara amiga por entre o pó da estrada, sem alguém que lhe diga aquela palavra que ele nunca ouviu. Talvez seja isso que ele procura, a palavra que ateie um contra-fogo na sua alma.
Prepara-se impaciente para o impacto.
Mas tudo é conjunturas quando visto de fora.
Tudo é hipóteses quando se vive em teorias.