quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

Estou de volta, há quem diga

Voltei a escrever, esperem por coisinhas novas em breve!

terça-feira, 2 de Junho de 2009

Explorações

A exploração de obsessões é um bom entretenimento para o domingo à noite.
Dar um pouco de sabor à carcaça que tens alojada naquele canto da tua mente a que chamas passado. Jogar mais um jogo, matar mais tempo que te afasta dos momentos aceitáveis para tais actividades intelecto-onanistas. Sem fluidos, não há espaço para isso e os sistemas eléctricos são sensíveis, não tão estranhos e sensíveis como o resto dos teus pares.
Primeiro número raro, último número que lês por hoje. Pequenos quadradinhos de fuga, estorias a roçar os limites do verosímil dentro dos seus próprios omniversos, as regras são flexíveis, já chega não atravessares paredes na vida real.
Ou ler mentes, mas isso não é problema, não perdes muito.
Enfadas-te na 63º vez que revives esta fantasia, e procuras as tuas próprias fantasias.
O teu próprio salto quântico, um pulo ao teu passado.
Recomeçar algures onde poderias mudar, aproveitar novas conceptualizações que vieram demasiado tarde, algures em tempos mais esponjosos, onde aprenderias todos os movimentos que os teus velhos ossos já não imitam, onde poderias ensaiar num palco vazio tudo o que aprendeste.
Adestras na tua mente as possibilidades, regras e condições. Ler todos os livros que não tens tempo para ler agora, não poderias revelar ao mundo a tua origem e terias que esquecer todos os que amaste neste futuro prestes a ser rescrito, as saudades do futuro são sempre as piores e os paradoxos rasgam galáxias.
Contemplas o odioso paradoxo da predestinação, de como terias que conter as poucas memórias que restassem desse salto, de como certas coisas não podem ser evitadas.
No entanto…
Tudo seria diferente, dominarias, recuperarias tempos perdidos em introspecções destrutivas e destrutivas tentativas.
Um deus dourado.
Um demónio alado.
Potencialidades elevadas ao Sol da tua existência.
Fantasias, são resquícios do lodo primordial de uma vida de nunca estares onde queres, de nunca sentires o que deves sentir.
Retomo obsessões externas

segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Integridade Estrutural

Nanossegundo após nanossegundo, elevados a potências incompreensíveis a nós pela sua imensidão, passados a perpetuar gestos claramente repetitivos com uma intensidade compulsiva.
Sabes que quando não durmo o tempo é especialmente relativo, contigo duplamente. Tempo estranho, fazes-me perder o comboio do meu pensamento. Espero pelo próximo enquanto suprimo demónios da libido.
Digladio-me com eles, bullet time, acrobacias mentais, espadas conectam-se em combate quando sinapses semi-adormecidas disparam cataratas de informação. Venço, mas fica sempre um deles. São piores que os gremlins, e nem os preciso de alimentar depois da meia-noite, qualquer momento é suficiente.
Mas por agora estão controlados, normalidade restabelecida na linha direcção lado nenhum.
Posso continuar, agora sem medo. Ainda que veja um deles num canto escuro da minha mente, a olhar me com seus olhos vermelhos.
Fica para outro dia.
Hoje tenho mais que fazer.
Hoje tenho que manter a minha integridade estrutural.

domingo, 26 de Outubro de 2008

Diatribe alcoolizada

Esta é outra diatribe alcoolizada, de como teríamos sido espectaculares noutra incarnação.
"Tu estás apaixonado com a própria ideia de estar apaixonado" disse a minha mente desesperadamente tentando pôr estas palavras de sabedoria na boca da minha paixão, sabendo antecipadamente que ela não satisfaria a minha necessidade do melodramático.
Seria esse o meu consolo, de que somos ambos perfeitos, mas não nesta vida, não agora...
"O agora revela a tua esperança", a mente replica.
Replica? Como odeio essa palavra, palavra standard de escritores sem caché criativo, tenta, por favor, tenta com mais força!
"Bebe mais um copo, agora de companhia, não a censures por beber sozinha"
Nunca a censurei por beber sozinha! Nunca, onde iria buscar moral para fazer tais coisas?
"Não admites que tentaste nesse momento o clássico manobra de Cristo, de quereres carregar a cruz dela? Não me podes mentir!"
Não posso ter um final feliz, um em que em esteja em posse de Luke Skywalker no poster no Return of The Jedi, salvando o universo conhecido?
"Sejamos realísticos!"
Quem disse que temos que ser realísticos, porque é que não me posso agarrar as minhas ilusões?
E desde quando falas com tanto requinte, preferia um merdoso abrasileirado "cai na real", soas demasiado pedante!
"Pedante! Eu sou o tua mente, sou tu, como me podes acusar de ser pedante!
Tu, arrogância sem fundo, cachorro sem dono, puto mal amado. O pedantismo intelectual é a tua cama, minha puta racionalista!"
Racionalista, tiveste fora da cidade por quanto tempo? A minha vida é o improviso de altares á terra, e ela será para sempre o meu primeiro altar á terra, o primeiro verdadeiro altar carnal, sangrento, belo, sem amarras lógicas.
"Mentiras racionalizadas, eu estive sempre aqui, sempre que ela partia, sempre que pensavas que ela podia não voltar, sempre que pensavas que ela era um mito desse suposto sono desfasado, sempre que abrias aquela porta, sempre que sentias aquele aroma era como aquele soco merecido de '97. Racionalizaste o fim, um fim antecipado, por pouco que não o racionalizaste por completo. Dou-te esse osso, cachorro, não racionalizaste por completo, voltaste a ela com o rabo por entre as tuas pernitas, enlameado em desespero narcisista!"
Não voltei a ela, não voltei como um cão, não voltei simplesmente.
Apenas fiz o que tinha que fazer, nunca tive jeito para fugir aos meus impulsos, os meus ameaços criativos são carne para canhão dessa ideia.
No mínimo, voltei a mim.

segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Gnomos Malévolos

Sinto que quando nasci me roubaram a alma, que uma força invisível, inefável levou-me a alma na calada da noite, a retalhou num altar à terra, tronco de carvalho de outros tempos.
Talvez tenham sido os gnomos de jardim…
Só agora é que percebi, é esse o meu objectivo, construir esse quebra-cabeças que é esta ordem no caos de vida que levo, encontrando dia-a-dia mais uma peça perdida num sorriso, numa voz, num cheiro, num toque e em momentos.
É uma oportunidade, vejo-a bem de perseguir esse gnomo, encontrar partes perdidas da minha alma, é uma maneira de construir.
Mas espera…
Já possuo os contornos, tenho uma ideia da forma, pequenos indícios da direcção.
Sinto uma sensação de dejá vu nestas visões, isto é mais antigo do que penso, talvez a demanda tenho começado noutro momento, e que todas as minhas racionalizações sejam um produto de uma consciência a pouco tempo desperta?
É que, sabes, as minhas memórias de criança são demasiadamente semelhantes as minhas memórias de embriaguez, não sei por quê, tem a mesma distância mental.
É como ver um filme em VHS demasiado gasto, uma K7 demasiadas vezes alugadas, aquele filme que toda a gente quer ver, mas ninguém admite ter verdadeiramente gostado. Pergunto-me por vezes, vezes de mais, o porquê disto. Infância ou álcool, os dois prometem nos tempos felizes, todos se divertem na TV, seja álcool ou uma promoção ao último Action Man.
Tenho medo que sejam sonhos mal recordados, sério que tenho, há demasiadas memórias assim, que a vergonha me impede de confirmar com fontes fidedignas.
Memórias de desgosto, desilusão ou simples insatisfação em relação a promessas não cumpridas.
Ninguém me disse, me avisou que recordar a minha própria vida seria assim tão difícil.
Irrelevante, o que interessa é o processo.
Irrelevante, a minha alma ainda anda a monte.
É que o meu karma veio em negativo, só pode ser isso, a demanda é ainda enorme. A destruição é motivo de progressão emocional, nada zen nos seus momentos maiores.
E ainda a alma foge.
E peças ainda são poucas.

domingo, 12 de Outubro de 2008

Caminhos já vistos

Penetro caminhos já vistos.
A minha fome por ti leva-me a cometer indiscrições monumentais, de proporções épicas, tudo para alimentar a fome de brutalidade, carnalidade e loucura.
Não posso, não devo, não me permito a arrastar-te comigo, mas não me importo de ser arrastado por ti, só por ti, só tens que ignorar toda a razão.
Que tal começarmos de novo?
Nomes novos para acções já nomeados de forma sôfrega?
Eufemismos relegados em prole de destemperos imediatos, tão doces na memória.
Um jogo em que ninguém saia ferido, de preferência, pelo menos desta vez, pelo menos neste momento, podemos ainda reescrever o nosso caminho nestas ruas desoladas.
Ainda vamos a tempo?
Ainda sabemos como isto começou, qual foi o momento decisivo que nos fez cair em graça?
Duvido, mas não se perde nada em tentar, em reinventar impulsos de formas mais belas, sem mentir, sem lhes dar nomes comuns.
Palavras ora ditas cedo ou tarde demais, dolorosas quando nunca são ditas.
Não as espero ouvir da tua boca, apenas que as penses, o teu corpo fala por ti.
É só isso que preciso.
Palavras conheço muitas, loucura só a minha.
É só isso que preciso.
Um pouco da tua loucura.
Ainda que…
Alertas-me para a tua estranheza contida, parece que me avisas de uma ponte caída ao fundo da estrada, uma vereda, um penhasco que eu deveria temer.
Será impressão minha ou mais uma expressão tua?
O que eu vejo é o meu medo ou é o teu, verdade que não sei.
Verdade que te quero, mas tenho medo de te afastar no processo.
Ou talvez já o tenha feito.
Vejo o meu desejo amordaçado por racionalismos odiosos mais uma vez, ainda.

domingo, 5 de Outubro de 2008

Noite de Lua Cheia

Noite de lua cheia, nem uma nuvem à vista e um céu com toques de sonho narcótico devidamente moderado.
Um gato negro esvai-se nas sombras, pouca luz transporta com ele. Pouco mais acontece à vista, excepto morcegos em voos rasantes, aparentemente ignorando o seu estilo retro-gótico.
O gato atravessa-se de novo no meu caminho. Bela sensação, dejá vu, por um momento julgo possível que exista algo mais no universo. Tento me agarrar a essa ideia sem metafísicas lamechas e comuns, seria fácil de mais, tento o caminho mais difícil, inserir-me no plano cósmico.
Associar estrelas a ideias, forma experimentada de preservar ideias, associar constelações a locais, planetas a pessoas.
Os teus antepassados já o fizeram vezes sem conta, em língua diversas, nomes numerosos como as estrelas nomeadas.
Soa fácil, não soa?
Podia ser, mas não é boa ideia perturbar cães que arrastam as suas correntes.
Podia ser, mas não é boa ideia enquanto tu próprio arrastas corroídas correntes.
O gato aparece uma terceira vez, fico optimista, quase que já não sinto as correntes e este não é local para ser urbano-depressivo. É um local para deambular pelas orlas de bosques, gritando epítetos em línguas malditas, deliciosamente sozinho e alienígena a este local.
E o que poderia pedir mais?
É a escuridão onde me encontro.
O que poderia ver mais?
É um local para encontrar o nada esbatido no tudo.
O que poderia pedir mais sendo um pedinte de beleza?

domingo, 28 de Setembro de 2008

Extinção Prematura


Por vezes alterco-me com questões importantes, questões nascidas da mente de um sofredor de insónias, são horas passadas em divisões disformes reflectindo acerca, por exemplo, da razão porque todos os animais com estilo estão extintos. É uma questão saudável de se considerar, soa a uma piada surrealista, porque é que toda a fauna exótica a sério bateu as botas. Será uma questão cultural, e por isso exótica, por estar extinta e assim fora do nosso alcance?
Não me parece!
Onde é que estão as galinhas gigantes?
E os lobos marsupiais?
E até os dodós são mais interessantes que um ganso aleatório.
Parece que estamos a viver num universo saído da mente de um Deus com inclinações de funcionário de repartição pública e um sentido de humor duvidoso.
“Galinhas! Que sejam pequenas, portáteis e gostem de milho! E boas no churrasco, já agora, para compensar os vírus que criei na terça-feira.”
Um pouco insosso, não acham?
Há quem sinta saudades de Salazar, eu sinto saudades do T-Rex.
Um certo fascínio pelo que se perdeu.
Pelo que nunca vou ver em primeira-mão, pelo que nunca vou poder apreciar nem sequer em segunda-mão.
E que se lixem os gansos.

domingo, 21 de Setembro de 2008

Tudo o que me adormeça de ti


Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Queria aprender os teus ritmos, as tuas marés, os teus inventos, os teus padrões de pensamento e os teus processos de criativos.
Aprendi algo, aprendi que nunca estou verdadeiramente livre, que estou sempre pronto a ser aprisionado, magnetizado, enleado numa teia de novidades estonteantes, de pequenas ovelhas como nuvens e gnomos viajantes.
Quero estar narcotizado até voltares, carnalmente, em explosões cabaré-punk.
Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Mas tu não voltas, pois não?
Porque isto só foi um momento.
Porque isto foi uma tentação.
Porque isto não podia ser mais.
Porque isto não podia ser mais agora.
Porque.
Porquê?
Não guardo qualquer remorso, nenhuma dor maior, nenhum ódio vermelho.
Queria que me vendesses a tua alma, mas fui cego, esqueci-me que a amava livre, que era isso, a tua liberdade, o que me mantinha atento, pronto a ouvir, em transe nas tuas palavras.
Não quero a tua alma, pelo menos agora, apenas quero reflexos dela e um pouco do teu desassossego.
Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Mesmo que tenhas quebrado o meu Japa Mala, mesmo derrubando o meu arcano carvalho, mesmo interrompendo o meu mantra, mesmo assim não vejo em ti pecado.
Em fim, pensamentos, no meio disto só me arrependo de não te ter beijado uma última vez.
Minto.
Isso seria demasiado final.
E não consigo esquecer a tua pele.
E o sono não voltará.

segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

Dualismos

Repara, a minha natureza é de uma dualidade peculiar, brutalidade e carinho desfasados por minutos simbólicos que nunca consegui bem compreender.
Uma besta criadora, um escritor, por vezes sem polegares oponíveis, rabiscando mundos de forma crua, observando calado, para sempre naquele banco de cimento sujo de outrora.
Preciso de musas, sem pudor digo que sim, sem vergonha digo que preciso de viver para escrever e tu és ainda uma página branca de mais, uma página que preciso de rabiscar e ler, pintalgar com crípticas ideias que nunca serão mais que ideias, que nunca serão mais porque todos temos que pagar uma portagens de sangue e suor neste mundo, burocracia emocional, medos de tempos passados como carimbos num passaporte.
Por vezes contemplo o suicídio social, para poder apagá-los, mudar de nome, de cidade, de vida, talvez algures para norte, para um sitio mais frio que este, longe de verões demasiado compridos. Nunca seria o suficiente.
Assim, ainda assim, abordo de forma pueril, inocente o mundo a minha volta, abordo-o com uma força, com um ímpeto, como se fosse um miúdo, como se tudo fosse novo.
A minha força de vontade roça a loucura por vezes, insensatez pura, impulsos mal comedidos, mas é assim que me sinto feliz, completo.
Não devia precisar de musas, consumem-me sempre, não devia porque as minhas musas são sempre decadentes, coisas do passado, de conjugação em pretérito (muito pouco) perfeito.
Gostava de pensar que és diferente, mas o universo dá-me sempre cartas do mesmo baralho, a exacta mesma mão de sempre.
E o meu mundo interior é sempre tão vasto, não devia por a minha alma nas mãos de outros seres humanos, tão integralmente, tão fatidicamente.
No entanto, preciso de te descobrir.
No entretanto, preciso de te sentir.
Preciso de saber o que és.
Por mais que possa doer.
Calma!
Digere.
Racionaliza.
Por força da lógica distorce verdades perdidas entre frases sem sentido, comete erros, mas comete algo, comete-te a algo.
Ordo ad Chao
Ordo ab Chao

domingo, 7 de Setembro de 2008

LIberdade

Para ti, liberdade
Amo-te nos teus momentos plácidos, no cheiro de papel velho, no embate mental, na clareza da lógica e nas perdas de sanidade temporárias, intensas e sonoras.
Ouço os teus suspiros, ideias e gritos, sabem-me ao mesmo, no prazer e na dor, marcados e dissonantes, sabem-me a vida, a violência.
Sem ânsias, contemplando furacões, livres de preconceitos destroem carvalhos centenários como quem esmigalha egos de colegiais novas de mais para perceber verdades experimentadas, destruindo casas, buracos desses artísticos macacos como se fossem pequenos lápis, roídos e enfraquecidos por horas de escrita sem sentido.
Amo-te liberdade, todas as tuas faces, representações, pictogramas desgastados e limpas ilustrações estilizadas, para os meus olhos são o mesmo. Do meu ego quero que uses todo, não me leves nada, abusa de mim, estas dores não existem, estes turbilhões são para ser admirados, nunca me poderiam magoar, engrandecem-me, enlouquecem-me, fazem me esquecer de mim, vivo como poucas vezes.
Não te peço mais, só quero partilhar contigo o caos.
Liberdade e caos, amantes intangíveis, admiro-vos em todos este processo de decadência planeada.
Quero-te a ti, tudo o que o tempo permita, tudo o que o amontoado de células e conceitos a que chamo Eu o permita. Todo o que o tempo me permita dar, tudo o que o tempo não arrastar nas suas águas, tudo o que poder colocar em palavras e movimentos.
Posso cantar muito bem canções doutros dias negros, posso articular palavras usadas em momentos pedantes. Posso criar, mas não me posso deixar aprisionar. Não me posso deixar ficar por esses corredores de palavras que inspiram nas massas segurança, sabes que todas não valem o oxigénio gasto para as expirar, por mais bela que seja a boca que as possa proferir.
Tenho que escolher-me a mim, a minha verdade, as minhas paixões internas, sabes que essas nunca me abandonaram, essas nunca me deixarão enquanto as sinapses do meu cérebro ainda dispararem.
E lembra-te, nunca serei totalmente teu.
Nunca serei mais do que eu.

domingo, 20 de Julho de 2008

Insólitas Colisões Nucleares

Este espaço é confinante e quase que sinto o tempo a solidificar a minha volta, como lodo, como tundra. Sinto-me redundante nesta sala, claustrofobia desmesurada em tempo e espaço. Não me sinto a mover, a ter direcção em pensamentos ou em movimentos.
Estagno se não sentir os cães no meu encalço, desafiam-me…
Não, espera, desafio-me, tenho que puxar os meus próprios cordões.
Tudo tem que ser feito de dentro para fora, pouco há do que depender lá fora.
O exterior nunca será mais real do que a publicidade que vês na TV, opiniões facciosas disfarçadas de factos por comentadores com agendas gordas e bagagens demasiado cheias.
Nada acontece que me demova desta linha de pensamento, os passos do tempo são demasiadamente lentos. As cordas da existência estão demasiadamente soltas e a sua vibração quase que não produz som no vácuo de interesse que é este momento.
Não vejo realidades que se consigam cruzar com a minha, não vejo os pontos de contacto, paralelismos que valha a pena explorar e porventura uma tempestade de partículas na qual entrar.
Horas de desespero substituídas por horas de indulgência meditativa, contemplativa, aborrecimento sem fim, todos os corpos que me rodeiam não são suficientemente gravíticos para me atrair, para trair a minha calma.
Gritos amotinam o momento, isto é novo, parece-me um bom momento para observar.
Sentada pouco segura, botas de outras modas, cara balançante entre a seriedade e algo que precisaria de uma vida para perceber.
Palavras baixam, atingem a barreira do som e desaparecem.
A minha mente pôs-se em fuga perante as possibilidades desta visão, é uma espécie de alimento, interlúdio do que seriam horas deixadas vagas por ideias concluídas e emancipadas.
Que foi isto?
É a pitoresca causalidade da passagem do tempo em insólitas colisões nucleares.
São preparações fundamentais em concílios de anciões sábios. A exploração da sua alma apresenta perguntas pertinentes a um observador leigo, um conhecedor acautelado dispensa pensamentos excedentes, remanescentes, que atrasam eventuais descobertas.
Um conhecedor acautelado apenas observa.
Um observador acautelado não se deixa confundir por visões dualísticas.
Eu, blasfémia cientifica!
Eu não tinha os conhecimentos para controlar tal força, tal força da natureza, tal instinto em mim, animal. Dinamismo explosivo, supernova de tonalidades avermelhadas, obscuras em velhos céus majestosos, novas impressões forjadas perante caminhos abruptos no seu aparecimento.
Puxamos-nos um ao outro por essas ruas tão velhas, sobre os nossos pés decisões anteriores, paixões novas, tentações não ignoradas e sôfregas vindas a superfície em busca de oxigénio alienado do mundo, colidindo com incautas paredes em momentos de surpresa em estado bruto. Suspiro um pequeno eureka, uma subtil descoberta, uma pequena surpresa nas minhas mãos, não te moves segundo as leis da física newtoniana, és algo fora desse enquadramento corpóreo.
E aqui nascem novas ideias, continuadas depois deste breve intervalo para publicidade em sonhos de um sono desfasado.

sábado, 21 de Junho de 2008

Decadência

Só vejo decadência, ando pela rua, frontes deslapidadas, canos rotos, lojas que já não actualizam os stock desde 84. Velharias, pessoas cansadas, sei lá.
Será reflexo de mim, caminhei vezes de mais estas ruas para nunca ter reparado em tanta morte a rodear a minha pessoa.
É reflexo, é, sem dúvida a minha própria mente não o consegue esconder de mim. Sinto-me a decair, a graciosamente me desfazer em pó nestas ruas e não há fé que me salve. Nojo a estes pensamentos, isto é só passageiro, mas sabe a eterno, sabe a montanhas, sabe aos Urais, imóveis, longínquos como uma memória que eu nunca tive. Não sei o que me fez pensar nisto, eu sei que isto é perene, vejo o dia no calendário em que vai tudo acabar, mas não acredito em tal mini Apocalipse, tanto fogo que limpará a minha existência deste mapa em que nunca quis estar cartografado. Não queria mesmo, não devia estar nessa lista, numerado, fogo, não devia, a minha alma não o queria, proibiu me de o fazer, ameaçou deixar me. Desculpas rascas, decadentes com um prostituta num canto escuro, para esta escolha, em nome da segurança dizia eu.
Porra, deixa-te de dúvidas existencialistas, tens trabalho a fazer. Deixa-te de ter ideias, adquire o método, um método que seja, algo, organiza-te, cataloga as ideias num armário escondido numa cave obscura por agora.
Por favor, por agora não penses, por favor, por agora não penses nela, por favor, concentra-te, por favor, por agora, esquece-te de ti próprio, por agora, não sejas acção nem reflexão, sê execução. Sê vazio de desejo, coma emocional induzida por objectivos, vê se percebes, agora não é o momento para isto, tens a tua vida em cima de ti, pungente, não tentes fugir, vai doer mais se o fizeres, Atlas não pode fugir.
Mais um par de dias e podes matar a mansa besta de carga.
Mais um par de dias e podes ser o lobo.

domingo, 1 de Junho de 2008

Uma Bela Tarde

Da última vez que passei lá por casa, para uma omelete e bacalhau é que reparei nas verrugas das pernas bolorentas.
Antecipei-me a tais pensamentos, procurei outros pormenores.
Talvez aquela marca no braço...
Notava-se ao longe uns bons períodos passados nos balneários frios de um clube barato de natação com mais uns poucos homosexuais.
Quer dizer abichanados.
Tolos, cheios de manias e chiliques, uns mitras coloridos.
Não tentou sequer esconder uma paixão gradual e criou um rap com influências funk, para assim lhe dar a conhecer o que era luxúria.
Teria ela esse poder?
Dominaria ela as artes do oriente?
Porventura chantilly e frutas cristalizadas no seu corpo.
Mas só aí me lembrei da alergia a produtos lácteos, mas não foi a tempo. Ao menos as pústulas tapavam-lhe a asquerosa narina esquerda que pingava ranhoca verde esmeralda.
Porque porra estaria ele ali?
Não estaria melhor perto da lareira?
O gato concordou, mas agarrei-lhe o rabo e mandei-o calar. Agora o bicho ter juízos...
Se não lhe coçasse a barriguinha de vez em quando, já tinha emigrado.
Viajado para Sul, tipo andorinha, neste caso um albatroz ou outro pássaro atroz!
Concentra-te, assado e com caril deve ser mesmo bom. Eh pá, tenho de comprar cotonetes, que os crocodilos começam a ficar impacientes lá no átrio.
A telepatia tornava-se lixada. De qualquer maneira, evitava-os, porque receava os meus pensamentos de sexo anal com bolachas maria.
Badalhoquices no meio de gelatina, ou talvez espargos com natas...
Ah, foi uma bela tarde!

(Este é um pequeno esforço colaborativo com a minha amiga Lianor, uma odezinha ao aleatório, um joguinho dedicado a imaginação.)

segunda-feira, 26 de Maio de 2008

Purga da Realidade

Mais uma purga, mais um início. Porra, mais uma ilusão desfeita pelo contacto com a realidade. O destino deve me ter confundido o meu amor à realidade com um desejo de conhecer a realidade.
Nada disso, no que toca à existência interpessoal, não quero realidades, quero criações, não quero provas, quero estórias, quero enlevo, quero, quero, quero, sei lá.
Mais uma mentira minha, mais uma lágrima caída por uma ilusão morta, mais um osculo negado a bom tempo.
Porque é que as ilusões são tão atractivas, sempre tão atractivas para mim. Bah, carte blanche para me agredir, mereço, claro que mereço.
Vou chorar para o duche, longe de tudo, água ensurdecedora cala os meus soluços.
Nada que uns headphones novos não curem.
Hey, it’s the end, my friend…ain’t it?