segunda-feira, 21 de abril de 2008

Antiguidades


Amor?
Um homem gasto, alimentado pela memória do beijo que ela, jovem exuberante, lhe partilhara.
Razão:
Mais vale a pena experimentar, se não nunca saberei o sabor…
É esse o fim desta estória, o princípio de outra, o meio é a força quinética louca de um beijo criando um novo rumo para um vida em constante estagnação.
O principio? Ah, sim o principio!
Algures por entre o frio de Janeiro e o acalentar de Março, sozinho mas de companhia, estava consigo mesmo, com a cerveja num dos bares do costume por entre amigos dispensáveis como chocolate quente numa noite de Inverno, percebes?
Discutia-se um pouco de tudo, quiche, aitolahas, música celeste e energia geotérmica em São Félix da Marinha.
E então entrou ela, entrou naquela sala, aquela sala outrora mais fumarenta, maravilhas do mundo moderno, e irremediavelmente na vida dele, um lapso ocasional do destino, roda ruída na engrenagem da maquinaria cósmica.
Por falar nisso, alguém tem um cigarro que eu possa cravar?
Hummm…
Continuando, ele sentiu essa perturbação no ambiente, virou-se instintivamente, no ar “The Birth of Cool” do mestre Miles, ela pálida, ruiva, enevoada, pernas de Moulain Rouge numas calças causais. Virava cabeças observadoras, percebem?
Do género que falhas um gole do teu whiskey-cola, se é que percebes a minha onda...
Ela acende um charuto, Havanero, se não me falha o senso do olfacto.
Mentes tombam na sua presença, mas não a mente dele, sobrancelha erguida, sobrolho em posição extrema e quiçá uma ligeira atracção, talvez maior se não fosse agora o fumo que a envolvia. Um olhar cruzado pelo acaso de uma mão erguida na busca da satisfação. Silêncio mental, ambos, uma cadeira livre, uma oportunidade que ela não despreza, será que está perdida?
É uma surpresa para ele, não pelo acto mas por ela, ela, ela é algo mais…
“Sabias que existem casos de tubarões fêmeas que deram à luz sem interacção sexual?”
Que porra de pergunta era aquela?
Uma linha de engate?
Piada onanista?
É por ele estar sozinho?
“Sabia, sabia, disse-me o Sir Richard Atenborough”
Sarcástico no tom, no entanto mostrando algumas abertas.
Conversa evolui, mentes ligadas na iluminação e disparate, emoção e lógica enquanto o tempo passa sem atenção as chamadas de cortina dos empregados, luzes fortes, mesas arrumadas e esfregão no chão.
“É a minha última noite aqui”
Final fatídico, um pouco dele morreu nesse momento, depois de tanto tempo, depois de tanta solidão, alguém com quem cruzar espadas mentais, ela de lábios brilhantes
E ela beijou-o
A sério, beijou-o ali como se fosse o Ragnarok e ele fosse a ultima fogueira. Chocado e impressionado, retribuindo a intensidade, uma explosão tão não característica dele, deixado então com um adeus até sempre ou até um dia, o que vier primeiro…
Razão:
Mais vale a pena experimentar, se não nunca saberei o sabor…
Uma razão louvável, noutras circunstâncias, mas a falta de constância perturba-o, ele é um homem de hábitos, impulsão ao mínimo, lógica em overdrive, overkill de lógica. No entanto, não foi só ela que retirou um sabor daquele beijo, ele sentiu por um momento o sabor da loucura, do improviso, o bebop emocional que a vida pode guardar.
E ele ainda caminha por estes corredores, por ventura mais feliz agora, essa noite foi importante, abriu portas, mas essa é outra estória…

5 comentários:

AnCaLaGoN disse...

Hell fucking yhea \m/

Noite magnifica de inesperados acontecimentos que aparecem como que inesperados para te fazer esperar mais do mundo!!!!

O mundo é teu, as portas estão abertas!!!

SÉ FELIZ!!!
SÉ ESPONTÂNEO!!!!

Lovernios, o Raposo disse...

Mais vale arriscar, experimentar, do que morrer sem ter aproveitado os aromas da vida. Essa vida que é composta de mudanças, mais um vento feroz do que própriamente um rio.

Anónimo disse...

gostei das tuas palavras, falaste de um modo romanciado, como se estivesses a escrever um romance digno de galardão. A vida não é tão doce, mas é sempre entusiasmante sentir que estamos a viver uma emoção forte.

Nês disse...

Mas e depois? Toda a gente diz: experimenta, atira-te... MAS E DEPOIS?

Beijinhos

Tr00sphera disse...

mto bom seu texto.