domingo, 28 de setembro de 2008

Extinção Prematura


Por vezes alterco-me com questões importantes, questões nascidas da mente de um sofredor de insónias, são horas passadas em divisões disformes reflectindo acerca, por exemplo, da razão porque todos os animais com estilo estão extintos. É uma questão saudável de se considerar, soa a uma piada surrealista, porque é que toda a fauna exótica a sério bateu as botas. Será uma questão cultural, e por isso exótica, por estar extinta e assim fora do nosso alcance?
Não me parece!
Onde é que estão as galinhas gigantes?
E os lobos marsupiais?
E até os dodós são mais interessantes que um ganso aleatório.
Parece que estamos a viver num universo saído da mente de um Deus com inclinações de funcionário de repartição pública e um sentido de humor duvidoso.
“Galinhas! Que sejam pequenas, portáteis e gostem de milho! E boas no churrasco, já agora, para compensar os vírus que criei na terça-feira.”
Um pouco insosso, não acham?
Há quem sinta saudades de Salazar, eu sinto saudades do T-Rex.
Um certo fascínio pelo que se perdeu.
Pelo que nunca vou ver em primeira-mão, pelo que nunca vou poder apreciar nem sequer em segunda-mão.
E que se lixem os gansos.

domingo, 21 de setembro de 2008

Tudo o que me adormeça de ti


Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Queria aprender os teus ritmos, as tuas marés, os teus inventos, os teus padrões de pensamento e os teus processos de criativos.
Aprendi algo, aprendi que nunca estou verdadeiramente livre, que estou sempre pronto a ser aprisionado, magnetizado, enleado numa teia de novidades estonteantes, de pequenas ovelhas como nuvens e gnomos viajantes.
Quero estar narcotizado até voltares, carnalmente, em explosões cabaré-punk.
Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Mas tu não voltas, pois não?
Porque isto só foi um momento.
Porque isto foi uma tentação.
Porque isto não podia ser mais.
Porque isto não podia ser mais agora.
Porque.
Porquê?
Não guardo qualquer remorso, nenhuma dor maior, nenhum ódio vermelho.
Queria que me vendesses a tua alma, mas fui cego, esqueci-me que a amava livre, que era isso, a tua liberdade, o que me mantinha atento, pronto a ouvir, em transe nas tuas palavras.
Não quero a tua alma, pelo menos agora, apenas quero reflexos dela e um pouco do teu desassossego.
Tudo o que me adormeça de ti, tudo o que me faça esquecer a tua pele.
Mesmo que tenhas quebrado o meu Japa Mala, mesmo derrubando o meu arcano carvalho, mesmo interrompendo o meu mantra, mesmo assim não vejo em ti pecado.
Em fim, pensamentos, no meio disto só me arrependo de não te ter beijado uma última vez.
Minto.
Isso seria demasiado final.
E não consigo esquecer a tua pele.
E o sono não voltará.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Dualismos

Repara, a minha natureza é de uma dualidade peculiar, brutalidade e carinho desfasados por minutos simbólicos que nunca consegui bem compreender.
Uma besta criadora, um escritor, por vezes sem polegares oponíveis, rabiscando mundos de forma crua, observando calado, para sempre naquele banco de cimento sujo de outrora.
Preciso de musas, sem pudor digo que sim, sem vergonha digo que preciso de viver para escrever e tu és ainda uma página branca de mais, uma página que preciso de rabiscar e ler, pintalgar com crípticas ideias que nunca serão mais que ideias, que nunca serão mais porque todos temos que pagar uma portagens de sangue e suor neste mundo, burocracia emocional, medos de tempos passados como carimbos num passaporte.
Por vezes contemplo o suicídio social, para poder apagá-los, mudar de nome, de cidade, de vida, talvez algures para norte, para um sitio mais frio que este, longe de verões demasiado compridos. Nunca seria o suficiente.
Assim, ainda assim, abordo de forma pueril, inocente o mundo a minha volta, abordo-o com uma força, com um ímpeto, como se fosse um miúdo, como se tudo fosse novo.
A minha força de vontade roça a loucura por vezes, insensatez pura, impulsos mal comedidos, mas é assim que me sinto feliz, completo.
Não devia precisar de musas, consumem-me sempre, não devia porque as minhas musas são sempre decadentes, coisas do passado, de conjugação em pretérito (muito pouco) perfeito.
Gostava de pensar que és diferente, mas o universo dá-me sempre cartas do mesmo baralho, a exacta mesma mão de sempre.
E o meu mundo interior é sempre tão vasto, não devia por a minha alma nas mãos de outros seres humanos, tão integralmente, tão fatidicamente.
No entanto, preciso de te descobrir.
No entretanto, preciso de te sentir.
Preciso de saber o que és.
Por mais que possa doer.
Calma!
Digere.
Racionaliza.
Por força da lógica distorce verdades perdidas entre frases sem sentido, comete erros, mas comete algo, comete-te a algo.
Ordo ad Chao
Ordo ab Chao

domingo, 7 de setembro de 2008

LIberdade

Para ti, liberdade
Amo-te nos teus momentos plácidos, no cheiro de papel velho, no embate mental, na clareza da lógica e nas perdas de sanidade temporárias, intensas e sonoras.
Ouço os teus suspiros, ideias e gritos, sabem-me ao mesmo, no prazer e na dor, marcados e dissonantes, sabem-me a vida, a violência.
Sem ânsias, contemplando furacões, livres de preconceitos destroem carvalhos centenários como quem esmigalha egos de colegiais novas de mais para perceber verdades experimentadas, destruindo casas, buracos desses artísticos macacos como se fossem pequenos lápis, roídos e enfraquecidos por horas de escrita sem sentido.
Amo-te liberdade, todas as tuas faces, representações, pictogramas desgastados e limpas ilustrações estilizadas, para os meus olhos são o mesmo. Do meu ego quero que uses todo, não me leves nada, abusa de mim, estas dores não existem, estes turbilhões são para ser admirados, nunca me poderiam magoar, engrandecem-me, enlouquecem-me, fazem me esquecer de mim, vivo como poucas vezes.
Não te peço mais, só quero partilhar contigo o caos.
Liberdade e caos, amantes intangíveis, admiro-vos em todos este processo de decadência planeada.
Quero-te a ti, tudo o que o tempo permita, tudo o que o amontoado de células e conceitos a que chamo Eu o permita. Todo o que o tempo me permita dar, tudo o que o tempo não arrastar nas suas águas, tudo o que poder colocar em palavras e movimentos.
Posso cantar muito bem canções doutros dias negros, posso articular palavras usadas em momentos pedantes. Posso criar, mas não me posso deixar aprisionar. Não me posso deixar ficar por esses corredores de palavras que inspiram nas massas segurança, sabes que todas não valem o oxigénio gasto para as expirar, por mais bela que seja a boca que as possa proferir.
Tenho que escolher-me a mim, a minha verdade, as minhas paixões internas, sabes que essas nunca me abandonaram, essas nunca me deixarão enquanto as sinapses do meu cérebro ainda dispararem.
E lembra-te, nunca serei totalmente teu.
Nunca serei mais do que eu.

domingo, 20 de julho de 2008

Insólitas Colisões Nucleares

Este espaço é confinante e quase que sinto o tempo a solidificar a minha volta, como lodo, como tundra. Sinto-me redundante nesta sala, claustrofobia desmesurada em tempo e espaço. Não me sinto a mover, a ter direcção em pensamentos ou em movimentos.
Estagno se não sentir os cães no meu encalço, desafiam-me…
Não, espera, desafio-me, tenho que puxar os meus próprios cordões.
Tudo tem que ser feito de dentro para fora, pouco há do que depender lá fora.
O exterior nunca será mais real do que a publicidade que vês na TV, opiniões facciosas disfarçadas de factos por comentadores com agendas gordas e bagagens demasiado cheias.
Nada acontece que me demova desta linha de pensamento, os passos do tempo são demasiadamente lentos. As cordas da existência estão demasiadamente soltas e a sua vibração quase que não produz som no vácuo de interesse que é este momento.
Não vejo realidades que se consigam cruzar com a minha, não vejo os pontos de contacto, paralelismos que valha a pena explorar e porventura uma tempestade de partículas na qual entrar.
Horas de desespero substituídas por horas de indulgência meditativa, contemplativa, aborrecimento sem fim, todos os corpos que me rodeiam não são suficientemente gravíticos para me atrair, para trair a minha calma.
Gritos amotinam o momento, isto é novo, parece-me um bom momento para observar.
Sentada pouco segura, botas de outras modas, cara balançante entre a seriedade e algo que precisaria de uma vida para perceber.
Palavras baixam, atingem a barreira do som e desaparecem.
A minha mente pôs-se em fuga perante as possibilidades desta visão, é uma espécie de alimento, interlúdio do que seriam horas deixadas vagas por ideias concluídas e emancipadas.
Que foi isto?
É a pitoresca causalidade da passagem do tempo em insólitas colisões nucleares.
São preparações fundamentais em concílios de anciões sábios. A exploração da sua alma apresenta perguntas pertinentes a um observador leigo, um conhecedor acautelado dispensa pensamentos excedentes, remanescentes, que atrasam eventuais descobertas.
Um conhecedor acautelado apenas observa.
Um observador acautelado não se deixa confundir por visões dualísticas.
Eu, blasfémia cientifica!
Eu não tinha os conhecimentos para controlar tal força, tal força da natureza, tal instinto em mim, animal. Dinamismo explosivo, supernova de tonalidades avermelhadas, obscuras em velhos céus majestosos, novas impressões forjadas perante caminhos abruptos no seu aparecimento.
Puxamos-nos um ao outro por essas ruas tão velhas, sobre os nossos pés decisões anteriores, paixões novas, tentações não ignoradas e sôfregas vindas a superfície em busca de oxigénio alienado do mundo, colidindo com incautas paredes em momentos de surpresa em estado bruto. Suspiro um pequeno eureka, uma subtil descoberta, uma pequena surpresa nas minhas mãos, não te moves segundo as leis da física newtoniana, és algo fora desse enquadramento corpóreo.
E aqui nascem novas ideias, continuadas depois deste breve intervalo para publicidade em sonhos de um sono desfasado.

sábado, 21 de junho de 2008

Decadência

Só vejo decadência, ando pela rua, frontes deslapidadas, canos rotos, lojas que já não actualizam os stock desde 84. Velharias, pessoas cansadas, sei lá.
Será reflexo de mim, caminhei vezes de mais estas ruas para nunca ter reparado em tanta morte a rodear a minha pessoa.
É reflexo, é, sem dúvida a minha própria mente não o consegue esconder de mim. Sinto-me a decair, a graciosamente me desfazer em pó nestas ruas e não há fé que me salve. Nojo a estes pensamentos, isto é só passageiro, mas sabe a eterno, sabe a montanhas, sabe aos Urais, imóveis, longínquos como uma memória que eu nunca tive. Não sei o que me fez pensar nisto, eu sei que isto é perene, vejo o dia no calendário em que vai tudo acabar, mas não acredito em tal mini Apocalipse, tanto fogo que limpará a minha existência deste mapa em que nunca quis estar cartografado. Não queria mesmo, não devia estar nessa lista, numerado, fogo, não devia, a minha alma não o queria, proibiu me de o fazer, ameaçou deixar me. Desculpas rascas, decadentes com um prostituta num canto escuro, para esta escolha, em nome da segurança dizia eu.
Porra, deixa-te de dúvidas existencialistas, tens trabalho a fazer. Deixa-te de ter ideias, adquire o método, um método que seja, algo, organiza-te, cataloga as ideias num armário escondido numa cave obscura por agora.
Por favor, por agora não penses, por favor, por agora não penses nela, por favor, concentra-te, por favor, por agora, esquece-te de ti próprio, por agora, não sejas acção nem reflexão, sê execução. Sê vazio de desejo, coma emocional induzida por objectivos, vê se percebes, agora não é o momento para isto, tens a tua vida em cima de ti, pungente, não tentes fugir, vai doer mais se o fizeres, Atlas não pode fugir.
Mais um par de dias e podes matar a mansa besta de carga.
Mais um par de dias e podes ser o lobo.

domingo, 1 de junho de 2008

Uma Bela Tarde

Da última vez que passei lá por casa, para uma omelete e bacalhau é que reparei nas verrugas das pernas bolorentas.
Antecipei-me a tais pensamentos, procurei outros pormenores.
Talvez aquela marca no braço...
Notava-se ao longe uns bons períodos passados nos balneários frios de um clube barato de natação com mais uns poucos homosexuais.
Quer dizer abichanados.
Tolos, cheios de manias e chiliques, uns mitras coloridos.
Não tentou sequer esconder uma paixão gradual e criou um rap com influências funk, para assim lhe dar a conhecer o que era luxúria.
Teria ela esse poder?
Dominaria ela as artes do oriente?
Porventura chantilly e frutas cristalizadas no seu corpo.
Mas só aí me lembrei da alergia a produtos lácteos, mas não foi a tempo. Ao menos as pústulas tapavam-lhe a asquerosa narina esquerda que pingava ranhoca verde esmeralda.
Porque porra estaria ele ali?
Não estaria melhor perto da lareira?
O gato concordou, mas agarrei-lhe o rabo e mandei-o calar. Agora o bicho ter juízos...
Se não lhe coçasse a barriguinha de vez em quando, já tinha emigrado.
Viajado para Sul, tipo andorinha, neste caso um albatroz ou outro pássaro atroz!
Concentra-te, assado e com caril deve ser mesmo bom. Eh pá, tenho de comprar cotonetes, que os crocodilos começam a ficar impacientes lá no átrio.
A telepatia tornava-se lixada. De qualquer maneira, evitava-os, porque receava os meus pensamentos de sexo anal com bolachas maria.
Badalhoquices no meio de gelatina, ou talvez espargos com natas...
Ah, foi uma bela tarde!

(Este é um pequeno esforço colaborativo com a minha amiga Lianor, uma odezinha ao aleatório, um joguinho dedicado a imaginação.)

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Purga da Realidade

Mais uma purga, mais um início. Porra, mais uma ilusão desfeita pelo contacto com a realidade. O destino deve me ter confundido o meu amor à realidade com um desejo de conhecer a realidade.
Nada disso, no que toca à existência interpessoal, não quero realidades, quero criações, não quero provas, quero estórias, quero enlevo, quero, quero, quero, sei lá.
Mais uma mentira minha, mais uma lágrima caída por uma ilusão morta, mais um osculo negado a bom tempo.
Porque é que as ilusões são tão atractivas, sempre tão atractivas para mim. Bah, carte blanche para me agredir, mereço, claro que mereço.
Vou chorar para o duche, longe de tudo, água ensurdecedora cala os meus soluços.
Nada que uns headphones novos não curem.
Hey, it’s the end, my friend…ain’t it?

domingo, 18 de maio de 2008

Descida

Aveiro, temos um problema.

Estou num padrão de reentrada difícil.

Não estou em controlo dos thrusters frontais, estou a cair sem nenhum domínio em relação a velocidade de descida, o ângulo está completamente errado.

Aveiro!

Respondam!

Aveiro, estou sozinho, preciso de direcções, estou sem controlo.

As minhas leituras são erróneas, não consigo ver o sol, a minha bússola não pára e não consigo ter referências visuais!

Aveiro, respondam!

Aveiro!

(Sim, é pequeno, final de semestre é assim...)

domingo, 11 de maio de 2008

Um gato observa atentamente uma vela

Um gato observa atentamente uma vela, destilando nos seus olhos todas as possíveis cores que o olho do gato pode refractar. Mais que isto são só sombras geradas pelo movimento impaciente de uma chama que aparenta querer fugir para paragens mais quentes, talvez a sul de Punta-Caña. O gato olha, pensando em algo, não consigo destrinçar nada nos seus olhos, além dos óbvios reflexos da escuridão.
Olho para o tecto, perco-me em alguns pensamentos que mereciam, só por si, uma mini-inquisição de sábado à tarde. Com uma pequena fogueira a acompanhar. Neurónios debandam de tais pensamentos, anseiam por umas férias volumosas algures a norte do nada, em que um pouco de patavina ladeia com classe uma zona de absolutamente coisa nenhuma.
O chocalhar da chama criou uma imagem que pica a minha memória, uma ideia, não lhe consigo chegar com os dedos da minha mente, coçá-la, claramente está nas costas da minha psique. Fecho os olhos, agora a sério, volto daqui a 8 horas, fechado para liquidação de ideias.
Tenho que fazer, não quero ser um extra num filme do Romero.
Tenho que fechar os olhos.
Fecho os olhos, agora é definitivo.
Uma última interjeição, já sei o que marinava na mente do gato.
Uma forma discreta de sentar na minha cara.

domingo, 4 de maio de 2008

Neste Momento

Despia-te de todas as palavras pronunciadas antes, prenunciadas, sabes que elas são materiais de mais para este momento.
Percorria o teu corpo, o teu corpo com dedos estilísticos, sabes que o meu toque não é ao acaso.
Beijava-te as tuas ideias virgens, sabes que nada mais me saciaria neste momento. Acariciaria os teus conceitos despojados de presunções preemptivas, sabes que não existe outro caminho nestas terras.
Possuiria o que é teu, novo para mim, sabes que não me permito a outras acções.
E disto, deste momento, o que posso guardar?
Pouco posso levar comigo, pouco posso levar além das conclusões, argumentos e algumas falácias.
E tu?
Guardarás algo?
Mais alguma carta?
Mais desejos escrevinhados em locais impróprios para tal, em momentos inoportunos para mais.
Mais letras na minha pele, mais marcas na minha psique.
É isso que sobra?
Diz-me que isto é só o início!
Não quero ver o fim assim tão palpável, tão fácil de definir em palavras medíocres enquanto o tempo se esvai em preposições que nunca mais serão úteis.
E que tal procurarmos um sinónimo para isto?
Ouvi dizer que a vida é um bom thesaurus.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

É assim

É assim, tenho uma imaginação muito activa, vejo tudo e vejo mais, crio complexas redes de sentidos, desfaço-as e entrelaço-as na esperança de auto-saciar, autopsiar mentalmente ideias que ainda esperneiam, alimentar-me como uma planta na sua fotossíntese, da luz do que vejo, do minério das conjecturas e da água que ainda não me banhou, das coisas que ainda não me tocaram. Tudo, caoticamente é para ser destrinçado, descarnado, sovado e espancando para a maior glória da minha imaginação. Espera, não sou como ele, não estou obcecado pela morte, não me interessa o que está para lá do véu, sabes que sim, compreende e não te enganes pelos rumores da minha guerra interior, são blasfémias crípticas contra um obcecado da vida! Não te rias, não estou a fugir da questão, é essa a questão, amo a viagem, nunca me interessa muito onde vou, quero ver o cenário e quiçá desviar o transporte, ameaçar o maquinista com uma faca com um cabo de marfim, interferir na realidade e destruir mentes no entretanto, roubar vasos de varandas e gatinhos de cestas alheias enquanto posso.
Para isso tenho que enfrentar a morte, a escuridão, os podres que atormentam a humanidade. Não me parece uma contradição! Que minimalismo intelectual! Causa e efeito, psicologia de pacotilha, se calhar não me deram abraços suficientes em miúdo, ora, obrigado Dr. Phil! Lá porque me visto de preto tenho que pertencer a um culto, lá porque estou de preto é obvio, claro e mais que certo que estou de luto, porra! És de ideias fixas, meu cabrão, ideologias mortas, convencionais e que já cheiram mal!
Ah, mais uma coisa! O cheeseburger é para levar? Hum hum…
São 13,37 €, faz favor.
Volte sempre!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Antiguidades


Amor?
Um homem gasto, alimentado pela memória do beijo que ela, jovem exuberante, lhe partilhara.
Razão:
Mais vale a pena experimentar, se não nunca saberei o sabor…
É esse o fim desta estória, o princípio de outra, o meio é a força quinética louca de um beijo criando um novo rumo para um vida em constante estagnação.
O principio? Ah, sim o principio!
Algures por entre o frio de Janeiro e o acalentar de Março, sozinho mas de companhia, estava consigo mesmo, com a cerveja num dos bares do costume por entre amigos dispensáveis como chocolate quente numa noite de Inverno, percebes?
Discutia-se um pouco de tudo, quiche, aitolahas, música celeste e energia geotérmica em São Félix da Marinha.
E então entrou ela, entrou naquela sala, aquela sala outrora mais fumarenta, maravilhas do mundo moderno, e irremediavelmente na vida dele, um lapso ocasional do destino, roda ruída na engrenagem da maquinaria cósmica.
Por falar nisso, alguém tem um cigarro que eu possa cravar?
Hummm…
Continuando, ele sentiu essa perturbação no ambiente, virou-se instintivamente, no ar “The Birth of Cool” do mestre Miles, ela pálida, ruiva, enevoada, pernas de Moulain Rouge numas calças causais. Virava cabeças observadoras, percebem?
Do género que falhas um gole do teu whiskey-cola, se é que percebes a minha onda...
Ela acende um charuto, Havanero, se não me falha o senso do olfacto.
Mentes tombam na sua presença, mas não a mente dele, sobrancelha erguida, sobrolho em posição extrema e quiçá uma ligeira atracção, talvez maior se não fosse agora o fumo que a envolvia. Um olhar cruzado pelo acaso de uma mão erguida na busca da satisfação. Silêncio mental, ambos, uma cadeira livre, uma oportunidade que ela não despreza, será que está perdida?
É uma surpresa para ele, não pelo acto mas por ela, ela, ela é algo mais…
“Sabias que existem casos de tubarões fêmeas que deram à luz sem interacção sexual?”
Que porra de pergunta era aquela?
Uma linha de engate?
Piada onanista?
É por ele estar sozinho?
“Sabia, sabia, disse-me o Sir Richard Atenborough”
Sarcástico no tom, no entanto mostrando algumas abertas.
Conversa evolui, mentes ligadas na iluminação e disparate, emoção e lógica enquanto o tempo passa sem atenção as chamadas de cortina dos empregados, luzes fortes, mesas arrumadas e esfregão no chão.
“É a minha última noite aqui”
Final fatídico, um pouco dele morreu nesse momento, depois de tanto tempo, depois de tanta solidão, alguém com quem cruzar espadas mentais, ela de lábios brilhantes
E ela beijou-o
A sério, beijou-o ali como se fosse o Ragnarok e ele fosse a ultima fogueira. Chocado e impressionado, retribuindo a intensidade, uma explosão tão não característica dele, deixado então com um adeus até sempre ou até um dia, o que vier primeiro…
Razão:
Mais vale a pena experimentar, se não nunca saberei o sabor…
Uma razão louvável, noutras circunstâncias, mas a falta de constância perturba-o, ele é um homem de hábitos, impulsão ao mínimo, lógica em overdrive, overkill de lógica. No entanto, não foi só ela que retirou um sabor daquele beijo, ele sentiu por um momento o sabor da loucura, do improviso, o bebop emocional que a vida pode guardar.
E ele ainda caminha por estes corredores, por ventura mais feliz agora, essa noite foi importante, abriu portas, mas essa é outra estória…

domingo, 13 de abril de 2008

Ironia


A ironia deste dia era nem ser nada irónico. Furo à primeira cadeira, von voyage, bênção dos céus e a minha cama agradece.
Segunda aula, pináculo da sorte, nada para entregar, trabalho de grupo, discussão e discordar por discordar, porque sim, se não onde estaria a piada?
Sério, onde?
Almoço fortuito, visão do futuro em excesso.
Ideias, ideias e ideias…
Parece uma música dos Pixies e o riso, o riso, pá, o riso parece uma pomba a cumprimentar o dia.
Fascina-me, a cor a criar padrões, sabes, o meu guarda-fatos é tão intoleravelmente negro, por vezes, uma vez a mais do que devia.
Gosto do preto, a sério, mas essas cores são inusitadas, não queria usar esta palavra, são porreiras, é isso, é tipo o chakra da base da espinha a tilintar, vibrar e quase a ondular. Faz te lembrar alguma daquela sensação de novidade de outros tempos, intersecção de tempos paralelos num momento, de facto, roxo indistinto. Inicio, já, ali, perversão em modo cruzeiro, o entusiasmo algo subjugado a uma sobrecarga sensorial. River Euphrates, era isso, deve ser pelas variações cromáticas da guitarra…
Voz talvez?
Vejo uma orelha cheia de furos assimétricos bem engraçados, numero impar de furos, gosto disso pela manhã disse me alguém, gosto do som ao vento de Aveiro numa hora matinal, aquele zumbido agudo metálico que te acorda ainda que a tua passividade perante o falso reboliço de cidade pouco povoada.
Não que tenho muito noção de números, de quantos eram, os furos, perdi todo o tipo de noções quando os Pixies me disseram olá.

domingo, 6 de abril de 2008

Palavras Ambíguas

Acho que me cansei de palavras ambíguas, de dar um passo atrás para dar um passo a frente. Estou farto de pensar, repensar e voltar a pensar em cada passo. De matutar na hipóteses e possibilidades, de só dizer as palavras seguras, de nunca sair do meu léxico de palavras multi-significantes, garantidas no não compromisso.
Preciso que me ensines novas palavras, impulsividade como modo, estilo e ímpeto de vida.
Mais vale fazer uma loucura do que enlouquecer sobre o peso da normalidade, certo?
Mais vale tentar e falhar do que ficar por aí olhando para o nada omnioso, esperando por algo que nunca virá, debaixo de um sol indiferente.
Queria sair deste circulo.